quarta-feira, 19 de março de 2014

Capitulo II


Quando acordei naquela manhã gelada fiquei surpresa ao ver que não estava chovendo, e descobri que Heather nos levaria ao colégio. Estava curiosa para saber como sobreviveria a isso.
Heather também não era o que podemos chamar de falante, assim como eu. Ou talvez fosse, mas não estivesse com vontade de compartilhar isso conosco. Gostaria de saber o que fazia ela não gostar de falar comigo ou com Matt. Quer dizer, ele ainda pode ser levado em consideração, pois vive trancado no quarto vendo filmes e lendo livros de ficção científica, está no primeiro ano, e ainda por cima parece ser um superdotado. Mas, em Dublin ele tinha mais amigos do que eu.
Você vai se atrasar. As coisas aqui são longe de onde moramos. – Heather disse descendo as escadas e não falando nenhuma espécie de “bom dia”, enquanto nós tomávamos o café da manhã.
Tomei mais um gole de meu café para não ter que respondê-la.
Ela ainda não tinha falado nada comigo sobre a noite anterior. Na verdade, parecia que ela estava fazendo de conta de que nada tivesse acontecido. E eu não tinha certeza se seria uma boa ideia perguntar sobre o ocorrido – sem falar no sal e nas inúmeras cruzes pela casa.
— Tomara que o tempo continue assim e que hoje não chova. – Tia Lucy exclamou. – Assim vocês podem visitar a fazenda. Vocês sabem montar, meninos?
Eu e Matt negamos rapidamente. Nunca tive muito jeito com animais, com exceção de Alioth.
— Eu ou Heather podemos ensiná-los depois, se vocês quiserem. Tenho certeza de que depois não vão querer outra coisa além de montar por esses bosques e trilhas. Vão participar de passeios com vistas incríveis.
— Mãe, nós já estamos muito atrasados. Depois eles decidem se vão querer ou não. – Heather bufou, pegando as chaves do carro e se preparando para sair de casa.
Depois de tomar o café, corri até meu quarto para pegar um sobretudo, o que não agradou muito Heather. Então, chegamos até a garagem.
Heather, hum, este carro não chama muita atenção, não é mesmo? – Perguntei um pouco incomodada ao ver um Jeep.
Nem pensar. Vai se acostumando. Ele é muito útil nos dias de chuva. – Ela respondeu, e logo entrou em seu carro.
Era tudo tão diferente de nossa casa em Dublin, que fiquei imaginando se iria me acostumar com isso. Morar próximo às montanhas não parecia ser tão ruim assim, mas também não era de minha vontade.
Talvez ela arrume botas de cowboy também, suspirei.
Tentei procurar aquele animal estranho correndo por todo o caminho, mas não encontrei nada. O terreno da casa bem grande e não havia muitos vizinhos. O que era um pouco monótono e cansativo.
Só percebi que tínhamos chegado quando vi uma placa, quase sendo engolida por uma árvore, dizendo: Bheagán College”. Quando olhei para o colégio, não pude deixar de sentir uma pontada de surpresa e, ao mesmo tempo, medo.
O colégio pertencia ao estilo gótico, com várias gárgulas enfeitando as paredes e as torres. Parecia ser tão antigo, que imaginei que talvez fosse algo como um patrimônio histórico. E me arrepiei ao pensar o que poderia haver de mais sinistro lá dentro. O terreno era enorme, de modo que não consegui localizar o final, o que o tornava mais assustador ainda. Tudo o que via era a imensidão de árvores no horizonte, criando um pouco de névoa. Tudo sem um fim definido aos meus olhos.
Os antigos proprietários da escola deveriam ter sido pessoas muito importantes no passado. Esperava que eles tivessem sido muito felizes em suas vidas para que não os encontrasse agora, na hora de suas mortes.
Heather desviou para outra pista e só então percebi que estávamos indo para um pequeno estacionamento. Havia algumas pessoas prendendo suas bicicletas com cadeados em um lugar para guardá-las, depois, Heather ficou andando por um bom tempo tentando achar uma vaga.
Se não tivessem demorado tanto teríamos uma boa vaga. – Ela disse.
Mas fingi que não havia escutado sua grosseria e, logo ela encontrou uma vaga. Assim que estava pronta para ocupá-la, um Mustang negro e reluzente entrou bem em nossa frente. Heather deu uma freada que quase fez com que Matt voasse para o retrovisor. Instantaneamente, meteu a mão na buzina.
Opa, desculpa Heaney. – Uma garota loura disse olhando para trás, mas com um sorrisinho sarcástico no rosto. – Acho que terá que escolher outra vaga. – Ela disse rindo. E, logo, ela e outros alunos que estavam no carro saíram rindo.
Vá à merda, Alice! – Ela berrou, para a minha surpresa.
Logo senti meu rosto corar. Eu deveria estar tão vermelha quanto Heather, ou talvez mais ainda, já que as ruivas estão 90% do tempo vermelhas. E, se Heather estava vermelha de raiva por causa daquela garota, eu, que tinha os cabelos mais alaranjados que os dela, deveria estar com o rosto roxo, de tanta vergonha. Esperava que ninguém me reconhecesse mais tarde. Senão, já teria fama da prima da garota louca do estacionamento.
Mas a garota loura e seus amigos não fizeram nada, a não ser saírem rindo do ocorrido.
Heather bufou.
Quero só ver o dia em que ela quebrar a cara nesse carro... – Ela resmungou.
Calma. – Eu disse, rolando os olhos.
Estou calma. – Ela disse séria. E eu não ousei discordar, antes que ela me mandasse ir à merda também, na frente de todo mundo. – Espero que não se envolva com esse tipo de gente fútil. Fiquei sabendo do porquê de sua mudança. – Ela disse e me olhou sério com aqueles olhos azuis e penetrantes. Era a primeira vez que eu olhava nos olhos de Heather. Quem me dera ser ruiva de olhos claros, como ela. Apesar de ter os cabelos mais claros que o dela, meus olhos tinham uma coloração comum de castanho claro.
— Certamente andarei com você. – Olhei séria para ela, devolvendo o olhar indiferente, mas estava perdida no meio de tanta vergonha e culpa. Até ela estava disposta a jogar na minha cara que eu havia atormentado sua paz, vindo morar nesse lugar escondido no meio dos bosques.
Para falar a verdade, eu não saberia qual das escolhas poderia ser pior. Andar com minha prima louca, ou com aquele pessoal meio Hollywood. Mas, como ela pareceu não estar com vontade de discutir, decidi não estender o assunto também.
 Depois de longos minutos, ela conseguiu encontrar outra vaga. Depois, fomos andando até a secretaria, passando por vários arcos em forma de ogiva, e gárgulas. Assim que entramos, tiramos nossas capas de chuva e acabamos molhando todo o carpete da secretaria. Uma senhora levantou os olhos por cima do computador e parou de digitar. Logo nos olhou de cima a baixo.
Em que posso ajudá-los?
Estes são meus primos e alunos novos, Brianna e Matthew Heaney. – Heather disse.
Ah, claro. – Ela se levantou de sua cadeira e abriu um armário, que continha várias pastas. Depois, pegou dois envelopes e nos entregou.
Aqui está um mapa caso vocês se percam, e suas cadernetas. Qualquer coisa, podem me procurar. – Ela disse sorrindo.
Obrigada. – Forcei um sorriso.
De nada. Tenham uma boa aula, espero que gostem do colégio.
Queria dizer a ela que seria um pouco complicado. Até agora nada estava dando certo ou estava sendo agradável.
Matt abriu o mapa e disse que encontraria sua sala sozinho, pois o sinal já iria soar e ele não gostava de chegar atrasado às aulas. Heather revirou os olhos, mas concordou. Minha primeira aula também não seria na mesma sala de Heather, mas mesmo assim ela me acompanhou. Em silêncio, claro.
A sala ficava no segundo andar, e teríamos que subir uma escada de caracol, cujos degraus foram entalhados na pedra. Disse a ela que não precisava subir comigo também, pois eu poderia achar a sala sozinha, e logo ela foi procurar suas amigas. Segurei firme a parede, pois, devido ao uso, os degraus começavam a ficar gastos e irregulares. Percebi também que era um lugar muito estreito, e me senti exprimida no meio de toda aquela gente.
Ao meu lado, havia uma garota de cabelos castanhos bem compridos. Esbarrei sem querer nela enquanto estava exprimida, e pude ver que ela estava completamente ansiosa para rever um garoto de casaco vermelho. Ao meu lado, havia um garoto que havia sido considerado o melhor aluno em matemática do colégio no ano passado, e uma outra garota gordinha que havia entrado para o grupo de teatro do colégio.
E não descobri tudo isso conversando com eles. Eu nem sabia seus nomes. Descobri isso por causa de seus corpos que, ao se chocarem com o meu, me fizeram ter aquelas visões. Não era muito agradável, já que eu ficava meio inconsciente e, até mesmo, lerda. Às vezes eu via coisas tão fortes, que me deixavam com dor de cabeça por vários minutos.
Quando cheguei ao corredor, com o mapa na mão, percebi que havia uma fila de armários e que muitas pessoas estavam aglomeradas para guardarem suas coisas, o que dificultava a passagem. Era nessas horas que eu gostaria de seguir o bom senso, esquecer o orgulho, e sair correndo, fugindo das pessoas.
Tentei desviar de toda aquela gente, mas, ao mesmo tempo em que havia muitas paradas de frente para seus armários bloqueando a minha passagem, também havia muitas pessoas andando na direção contrária que eu estava, então acabavam esbarrando em mim. Sem falar do barulho das vozes uníssonas e das risadas. Me senti como se eu estivesse andando dentro de um elevador. Minha cabeça começou a doer por causa das várias visões que me atacavam de uma vez só, meu corpo começou a não responder os meus sentidos e eu estava começando a me sentir tonta. Tudo que eu queria era sair daquele corredor o mais rápido possível, mas agora não estava nem mais conseguindo andar com a mesma facilidade de antes.
Um garoto passou por mim, e pude perceber que sua pele havia ficado colorida por causa dos reflexos de um vitral. Mas, o que mais me chamou atenção, foi o olhar ameaçador que ele me lançou. Mas não tive tempo para pensar nele, por causa das visões que invadiam e se misturavam em minha mente. Pensei que fosse desmaiar, mas um segundo depois o mesmo garoto estava parado diante de mim, me segurando pelos ombros, criando uma barreira entre mim e as outras pessoas.
Livre de todas aquelas visões, agora eu já podia voltar a respirar novamente e senti as minhas pernas pararem de tremer, fazendo com que eu ficasse mais forte, mas, ainda assim, ainda estava me sentindo tonta. Quando olhei para o estranho garoto, percebi seu rosto ainda estava dividido em quatro cores, por causa do vitral: Azul, amarelo, violeta e vermelho. Entretanto, não pude deixar de notar que ele tinha um belo par de olhos grandes com tom de azul-cobalto, e cílios muito longos e negros. Não consegui desviar meus olhos dos dele. Era uma sensação estranha, como se eu estivesse sendo hipnotizada.
Entretanto, com aqueles olhos, seria difícil encontrar alguém que não tivesse a mesma reação que eu.
Só depois de um bom tempo encarando-o foi que percebi que ele estava me sacudindo e dizendo alguma coisa. Quando saí daquele estranho estado de hipnoze, pude ouvir a sua voz grave dizendo:
— Você está bem? Está conseguindo me ouvir? – Ele me sacudia levemente e, só então percebi que havia várias pessoas ao nosso redor nos olhando e cochichando, provavelmente sobre o acontecido.
Que ótimo. Certamente eu comecei meu ano escolar com o pé direito.
— Você está bem? – Ele perguntou novamente, com a expressão preocupada.
— Estou. – Disse com a voz fraca e ainda me sentindo tonta. – Estou muito bem, obrigada. – Já estava me preparando para me livrar dele e de toda aquela multidão, quando ele segurou meus ombros com mais força.
— Tem certeza? Você quer que eu a acompanhe até o pequeno hospital do colégio?
— Não, não será necessário. Eu só tive um pouco de dor de cabeça, mas estou bem.
— Nesse caso, eu posso acompanhá-la até a sua sala. – Ele disse sorrindo. E que sorriso era aquele... Por um instante senti que estava ficando hipnotizada de novo.
Bem, não seria nada mal.
Não precisa se preocupar, a minha sala fica aqui perto. – Não sabia mesmo se a sala ficava perto ou não, mas não queria a companhia dele. – Eu já estava indo para lá. – Me apressei em dizer para convencê-lo.
— Qual a sua sala? – Ele perguntou, ainda com o sorriso no rosto.
— Sala sete. – Disse conferindo no mapa.
— Que coincidência! A minha também. Então, acho que poderíamos ir juntos para a sala. Você se sente melhor?
Resmunguei algo que ele não deve mesmo ter compreendido e rolei os olhos. De fato, eu estava começando o ano com o pé direito...
Mesmo que eu não tivesse sido simpática com ele desde o início, ele continuava com o sorriso no rosto, mas algo nele me mantinha afastada. Ao mesmo tempo em que ele parecia ser uma boa pessoa – e um dos garotos mais bonitos que eu já havia visto – ele me causava arrepios. E, tentei ao máximo não olhar de novo para aqueles olhos azul-cobalto.
A sala ficava no final do corredor e ele andava do meu lado de maneira que ninguém conseguia esbarrar em nós. Pensei que talvez eu não fosse a única que quisesse desviar dele. Mesmo assim percebi que algumas pessoas olhavam para nós e cochichavam algo.
Assim que chegamos à sala eu pude perceber que ela já estava quase cheia. Sentei em uma das últimas cadeiras para não chamar muita atenção, mas não adiantou muito. As pessoas viravam para trás para me olharem. Ou então olhavam para mim, rapidinho, e cochichavam alguma coisa, seguido de alguns risos.
O garoto que me acompanhou pareceu disposto a acompanhar até o lugar que eu iria sentar, pois assim que eu me direcionei para o fundo, ele se sentou atrás da minha carteira. Não pude deixar de evitar sentir o olhar dele queimando em minhas costas.
Digamos que a única coisa sombria naquela sala era eu: A novata.
Apesar de o colégio ser escuro e parecer ser muito sombrio por causa de todas aquelas gárgulas, arcos e vitrais, as pessoas pareciam ser bem coloridas. A única que estava completamente de roupas escuras era eu.
Um tempo depois, percebi que a garota loura que roubou a vaga de Heather, entrou na sala acompanhada de alguns amigos.
Que ótimo. Espero que a Legalmente Loira não me reconheça.
E isso durou por algum tempo.
Assim que ela chegou, estava tão entretida com sua conversa que nem percebeu que pisou em meu pé com aquela bota de salto fino, e quase gritei de dor. Logo se sentou mais ou menos perto de onde eu estava.
— Você é aluna nova? – Ouvi uma voz atrás de mim. Quando me virei para ele, tentei não encará-lo nos olhos.
— Sim. Eu me mudei ontem. – Suspirei.
— Meu nome é George, eu também sou aluno novo. Entrei no colégio no meio do ano passado, mas sabia que não tinha te visto aqui no colégio antes. – Ele disse sorrindo. – Como você se chama?
— Brianna Heaney. – Forcei um sorriso. Talvez fosse o máximo que eu poderia fazer após ele me salvar de desmaiar no corredor.
Tá bom, você quer enganar a quem Brianna? É claro que você só forçou um sorriso para esse garoto porque ele é lindo-de-morrer.
— Esse nome me é familiar... – Ele disse pensativo. – Você é parente da Heather?
— Sim, nós somos primas. Você a conhece?
— Só de vista. – Ele jogou os ombros. – Como eu disse, sou novo aqui também e não conheço muitas pessoas.
Eu ia respondê-lo, quando um professor alto e magricela entrou na sala e nos fez virar para frente.
— Seja bem vinda. – George murmurou em meu ouvido, para que apenas eu ouvisse, o que me causou um arrepio e uma série de tremedeira por todo o meu corpo.
Depois de todas as aulas, fiquei aliviada quando o sinal do almoço soou e todos saíram animados e conversando alegremente. Estava quase descendo as escadas quando ouvi alguém me chamar. Ao virar-me, encontrei um garoto bem alto vindo até mim.
Olá, o diretor pediu para que eu ficasse encarregado de lhe entregar isso. – Ele disse mostrando um papel dobrado com uma mão, enquanto endireitava seus óculos com a outra. – É a senha para o seu novo armário, caso você precise guardar alguma coisa nele.
Obrigada. – Disse tentando pegar o papel sem encostar em suas mãos.
Não foi nada. Qualquer coisa pode falar comigo, meu nome é Alex. E, seja bem vinda!
Forcei um sorriso para ele, que sorriu de volta e desceu as escadas, junto com as outras pessoas que estavam saindo para o intervalo.
Voltei para a sala e peguei meu material para colocá-los no armário. Demorei um bom tempo para achá-lo. Era o armário sessenta e cinco. Parei em frente a ele, com os livros no chão, enquanto tentava colocar a senha para abri-lo. Sempre fui um desastre com senhas, especialmente a de armários do colégio. Nunca sabia para que lado girar o cadeado. Por isso, passei muito tempo em frente do meu novo armário. Mas foi com grande surpresa, que algum tempo depois, percebi que não estava mais sozinha.
Pude ouvir um barulho alto, como se algo tivesse sido atirado em algum daqueles armários. Aquele barulho fez com que eu esquecesse completamente da senha, e corresse até onde aquele barulho veio.
Ao lado de uma das salas daquele andar, havia um garoto, incrivelmente alto e forte, segurando outro pela camisa. Meu instinto era de correr até lá e separar aquela briga, mas algo dentro de mim me fez ficar espiando os dois. Me escondi atrás de um armário, e tentei escutar o que eles diziam. Por sorte, o corredor estava vazio e só nós três poderíamos ser ouvidos nitidamente.
— Você irá até a reunião hoje, está me entendendo Gabriel?
— Eu já disse que isso é loucura. – Gabriel disse com raiva, tentando se soltar das mãos grandes e fortes daquele outro garoto.
— Agora é tarde demais para voltar a trás. – Ele disse empurrando Gabriel mais uma vez no armário, causando um estrondo. – Thadeu ficará furioso se você não comparecer.
— Diga a ele que minha partida é certa. Eu não prometi a me aliar a vocês. Essa história é loucura! – Ele começou a gritar.
— Cale a boca antes que chame a atenção de alguém, Gabriel. – Ele trincou os dentes. – Não queremos ter complicações com as pessoas daqui, não é mesmo? Então faça o favor de cumprir seu dever. O próximo será Max Stuart.
O garoto alto e forte soltou Gabriel que bateu, pela última vez no armário, causando mais uma vez, aquele barulho horrível. Logo, começou a andar sem mesmo olhar para trás, em direção às escadas, até sumir da minha vista.
Gabriel desencostou do armário em que foi brutalmente jogado, e começou a andar de um lado para o outro pelo corredor, bufando e maldizendo vários nomes. Depois, começou a resmungar e falar algumas palavras que não consegui entender. Um tempo depois, começou a andar também em direção às escadas.
Quando ele foi embora, voltei a olhar para o lugar em que ele estava. Gabriel também podia ser considerado forte, não tanto quanto aquele garoto que o segurava pela camisa, mas poderia ter dado uma boa surra no outro garoto, ao invés de ficar quietinho ao ser empurrado em um armário. Não entendia porque havia preferido não brigar e aquela conversa também em chamou a atenção.
Mas enquanto me perdia em pensamentos, olhei mais atentamente para o local em que eles estavam e quase gritei de susto. O armário que Gabriel havia sido empurrado estava completamente amassado. Era como se o choque de seu corpo tivesse feito aquilo com o armário, embora fosse difícil de acreditar. Aproveitei que estava sozinha no corredor, e saí correndo em direção ao armário. Fiquei horrorizada ao ver que não havia sido impressão a minha e que eu não estava ficando louca.
Voltei ao meu armário para guardar meus livros, e desci as escadas, ainda pensativa. Assim que cheguei ao pátio, tirei o mapa de meu bolso para tentar encontrar a cantina.
Você não vai precisar disso.
Quando levantei meu rosto, pude ver George parado em minha frente, me olhando sério. Aquele cenário escuro, cheio de arcos e gárgulas acabou fazendo com que ele parecesse ainda mais ameaçador.
Como? – Perguntei confusa.
Posso te levar até a cantina. Vamos rápido, senão as mesas irão acabar.
Não disse nada, mas também não recusei a companhia dele. Fomos andando entre os arcos, por um bom em silêncio, até a cantina e pegando nosso almoço. Percebi que talvez nossos rostos ficassem coloridos por causa de alguns vitrais que encontrávamos pelo caminho, e sentia meu estômago embrulhar todas as vezes que me deparava com alguma gárgula.
Assim que pegamos nosso almoço, George me conduziu até um salão incrivelmente grande, com algumas mesas que já estavam ocupadas. O espaço era enorme, e todas os alunos pareciam estar sentados muito próximos, de modo que dava a impressão de que todos deveriam se conhecer. O salão era protegido por uma Abóbada de Nervuras, para o meu espanto, e cercado de outros vitrais, dessa vez mais coloridos. Talvez para diminuir o ar sombrio, daquele lugar escuro.
Nunca tinha parado para pensar em como seria o meu novo colégio, mas, certamente, imaginei algo mais comum. Não havia pensado em como aquele colégio deveria ser caro e na diferença do número de alunos comparados ao meu outro colégio.
Logo começou a chover bem forte. Uma pena que eu havia esquecido minha capa de chuva na sala.
Você não gosta de chuva? – Ele perguntou, enquanto nos sentávamos em uma mesa para almoçar.
Mais ou menos.
Eu acho bem bonito. – Ele disse com o olhar distante.
Então, depois de três longos minutos de silêncio ele disse:
Então, você me disse que havia se mudado. De onde você veio?
— Dublin.
— Mesmo? Eu já morei lá também. O que a fez sair da agitada Dublin e vir morar no campo? – Ele disse rindo.
Meu pai foi transferido. – Menti. Eu sabia que as pessoas perguntariam o porquê da minha mudança, então, depois de horas inventando uma desculpa na frente do espelho, eu cheguei a conclusão de que usaria o emprego de meu pai como desculpa.
Mesmo? E o que ele faz?
Ele é médico.
Hum, que legal. E você está morando com sua prima, certo? – Ele disse arqueando uma sobrancelha.
Na verdade sim. Como você sabe de tudo isso?
Eu suspeitei, pois vi você chegar hoje com ela. Sei aonde Heather mora. Eu moro ali perto. Somos vizinhos agora. – Ele sorriu.
Mesmo? – Disse bastante surpresa. – Não sabia que tínhamos vizinhos.
Já saiu para passear alguma vez pelo terreno?
Na verdade não, me mudei ontem e estava chovendo muito.
Já vi onde termina o seu terreno. Ele acaba onde começa o meu. É muito longe mesmo. Talvez seja difícil você andar tudo sem se perder. Se quiser, posso acompanhá-la. Você sabe andar a cavalo? Meus pais criam alguns.
Infelizmente não sei. Mas hoje de manhã minha tia se ofereceu para me ensinar a montar. Acho que ela também cria alguns.
De fato. Já vi alguns dos seus. São animais muito bonitos. Eu poderia te ensinar também... Se você quisesse. Eu faço hipismo por 5 anos. – Ele suspirou.
Humm, claro. – Disse enfiando um bom pedaço da comida na boca para que ele percebesse que devíamos acabar com a conversa.
Você é prima de primeiro grau de Heather? – Ele perguntou de repente.
Revirei meus olhos e balancei a cabeça negativamente.
Hum, então de segundo?
Fiz um sinal para que ele esperasse, e é claro que demorei muito tempo para mastigar. E ele pareceu não se incomodar com isso. Infelizmente.
Nossos pais são primos, mas não sei de qual grau.
É uma parte muito distante de sua família?
Toda minha família é distante. – Admiti. Ele não pareceu surpreso.
Entendo.
E você? Por que saiu de Dublin? – Não entendi muito bem porque fiz essa pergunta a ele.
— Por causa do trabalho dos meus pais também. Isso requer muita... instabilidade.  Nós já moramos na França, Inglaterra, Escócia, Limerick, Laois, Louth, e até mesmo Dublin, como você.
Senti um frio na espinha ao ouvi-lo pronunciar essa frase. Talvez por causa do “como você”, apesar de que isso não fosse nada demais.
Uau! Isso é... Diferente.
Sim, eu sei. – Ele disse com o olhar distante.
Então, voltamos a almoçar. Só um tempo depois é que observei algo bem estranho. Nós estávamos sozinhos em uma mesa no almoço, enquanto a maioria das pessoas estava cercada de amigos.
Você não tem nenhum amigo por aqui? – Disse enquanto tentava encontrar outra pessoa, igualmente sozinho.
George balançou a cabeça negativamente, já que estava mastigando. Talvez ele estivesse usando meus métodos para não dizer coisas que não o agradavam.
Mas por quê?
Acho que não me relaciono muito bem com as pessoas.
Mas você foi bem simpático comigo.
Achei você legal.
E não existem outras pessoas assim por aqui?
Não. – Ele disse com a voz seca. Talvez não estivesse se sentindo a vontade com o rumo que a conversa havia tomado.
Permanecemos em silêncio por um tempo, depois ele continuou.
Na verdade, tenho uns dois amigos por aí. Mas não temos muitas aulas juntos. Quando encontrá-los eu apresentarei você a eles.
Não disse mais nada. Estava começando a parecer uma chata e fofoqueira.
Foi quando olhei de repente para o outro lado da cantina. Aquele garoto forte e alto, que eu havia visto no corredor com Gabriel, estava passando entre as pessoas e se sentou em uma mesa, onde havia algumas pessoas. Pela primeira vez, observei como aquele garoto tinha uma expressão maldosa no rosto. Ele começou a dizer algumas coisas para as pessoas na mesa, e percebi que estava tentando falar muito baixo, e os outros prestavam muita atenção no que estava sendo dito. Mas não responderam nada. Cada um voltou a ficar em silêncio, olhando para lados diferentes. Fiquei encarando todos eles por um tempo, um pouco confusa.
George logo percebeu que eu estava incomodada com alguma coisa.
— Aconteceu alguma coisa? – Ele perguntou.
— Não, não aconteceu nada. – Disse quase sem fôlego, ao perceber que ele havia acompanhado o meu olhar e, quando voltou a olhar para mim, seus olhos me lançaram um brilho estranho. – Quem são aquelas pessoas? – Disse voltando meus olhos novamente para a mesa onde eles estavam.
Percebi que George trincou os dentes, mas me respondeu gentilmente.
— Já os vi andando pelo colégio antes. – Ele fez uma pausa. – São sinônimos de encrenca.
— Como pode ter tanta certeza disso?
— Ouvir dizer que eles frequentam lugares que não são vistos com bons olhos pela cidade. E estão sempre arrumando confusões por onde passam.
Como fiquei por um bom tempo em silêncio, pensativa, George começou a conversar comigo sobre diversas coisas. Talvez estivesse tentando desviar o assunto sobre aquele estranho grupo. Logo, me informou que nossa próxima aula seria Inglês, e que estaríamos novamente na mesma sala. Assisti as outras aulas e quase dormi em todas elas.
No final, Heather pediu para que eu a encontrasse no estacionamento, enquanto eu guardava alguns livros dentro do armário do colégio.
Ainda não tinha decorado minha senha, portanto demorei um bom tempo para descer.
Quando finalmente guardei todo o meu material, percebi que não encontrava o mapa do colégio em lugar nenhum. Me abaixei para vasculhar em minha mochila tentando encontrar o mapa, mas não adiantou muito.
Respirei fundo tentando manter a calma. Eu poderia sair andando pelo colégio ou então pedir informações para alguém. Mas nenhuma das opções me agradou muito. Especialmente porque o colégio estava começando a ficar deserto.
Foi então que olhei para os lados e percebi que não adiantaria nada ficar parada esperando que alguma boa alma aparecesse e me dissesse qual era o caminho certo para chegar até o estacionamento. Coloquei a alça de minha mochila em um ombro só, e comecei a descer as escadas, tentando me lembrar qual era o caminho. Talvez Matt ou Heather desconfiassem de minha demora e viessem me procurar.
Quando avistei a porta do prédio em que estava, notei que estava chovendo. Peguei minha capa de chuva e saí a caminho do estacionamento. Pelo menos eu achava que estava indo pelo caminho certo.
Andei por volta de vinte minutos, quando finalmente pude ouvir algumas vozes.
Andei em direção a elas e notei que estava perto da quadra do colégio. Ótimo, eu realmente estava perdida, já que não havia passado por aquele lugar antes.
Entretanto, percebi que a quadra estava cheia. Alguns garotos, vestindo uniformes de rugby, praticavam alguns lances do jogo, enquanto outros já estavam indo embora, ainda com os uniformes. E havia também algumas pessoas sentadas na arquibancada. Entre elas, estava o garoto que me entregou a senha de meu armário. Ele estava sentado com um grupo de estudantes e comendo um cachorro quente.
Brianna! – Alex disse assim que me viu, com um sorriso estampado no rosto, e fez um sinal para que eu me juntasse a ele. Tentei forçar um sorriso.
E é claro que todos seus amigos estavam olhando para mim, curiosos.
Não sabia que gostava de jogos. – Ele disse, sorrindo.
É... Um pouco, na verdade. – Menti.
Gostaria de entrar para a equipe feminina? – Ele disse maravilhado, totalmente empolgado com a ideia.
Não, não. Eu não entendo muito de esportes. Só gosto de assisti-los, acredite.
Mas você poderia treinar, seria bem divertido.
Eu não tenho talento para tanto. O time iria desistir.
As meninas poderiam te dar força, elas são bem legais. E, olha, se você fosse bem poderia conseguir uma boa bolsa!
Obrigada, mas não estou interessada no momento. Não agora. – Disse por fim. Ele pareceu ficar um pouco constrangido.
Hum, certo. Então, já conhece os jogadores?
Na verdade não.
Olhe, aquele que está com a bola na mão é Max, capitão do time. – Ele apontou para um garoto que estava com uma alça da mochila apoiada em um ombro só, e conversando com outro garoto. Percebi que ele era o garoto de casaco vermelho que eu havia visto mais cedo na mente de algumas pessoas que esbarrei quando estava subindo as escadas para minha primeira aula. Logo ele acenou para a equipe e o acompanhei com o olhar enquanto ele saía da quadra. – Os outros que estão treinando são Brian, Calebe e John. Depois te apresento melhor a eles. Esses são os Real Ravens, o melhor time do colégio. Estão treinando para o campeonato. Tenho certeza que vencerão! Agora Max é o capitão, e ele é bastante eficiente.
Agora? – Perguntei confusa. Às vezes as pessoas usavam uma única palavra que mudava tudo.
Ele entrou esse ano como capitão. Estava tentando isso desde o ano passado. – Ele disse meio desconfortável, seu sorriso ia desaparecendo de seu rosto.
E quem era o antigo capitão?
Bem, você irá acabar descobrindo de qualquer jeito. A escola toda só anda falando nisso. – Ele deu de ombros, fazendo uma pausa. – Ele simplesmente desapareceu. Sim, foi exatamente isso que aconteceu. Saiu com os amigos num dia, e não voltou mais. 
— Não há nenhuma pista do que tenha acontecido? – Perguntei horrorizada.
— Não. Você não lê os jornais? A polícia está suspeitando de que haja alguma gangue ou algo do tipo por esses tempos, pois muitos jovens estão misteriosamente desaparecendo. Já não é o primeiro caso que acontece aqui no colégio. – O garoto torceu os lábios, e logo ficou em silêncio, voltando a prestar atenção no jogo. Assim como seus amigos.
Estranho. – Disse, pensativa
Ele assentiu com a cabeça. Mas eu não precisava falar com eles para retirar todas as informações necessárias para meu trabalho. Um único aperto de mão, ou um inofensivo empurrão ou tropeção, seguido de minhas humildes desculpas e, pronto, saberia muito mais sem eles me dirigirem uma única palavra.
Não que eu estivesse disposta a usar esse método, é sempre ruim o contato físico, pois o contato com as outras pessoas sempre me causava uma sensação horrível. Porém, para o que eu estava fazendo, havia sempre um esforço a mais. Não conseguiria resolver essas histórias dependendo apenas de pessoas. Pessoas mentem. Era preciso a verdade, era preciso vasculhar suas lembranças. Era preciso ter visões.
Quando olhei para o relógio percebi que estava bastante atrasada. Heather ficaria furiosa e provavelmente desistira de me dar uma carona até em casa. Afinal, que vantagem Heather teria em me deixar em segurança em casa? Nenhuma. E pelo que aparentava Heather não estava disposta a ser legal e me procurar pelo colégio só por causa da carona.
Continuei prestando atenção no jogo, antes de perguntar para aquele garoto, qual era o caminho que eu deveria fazer para voltar ao estacionamento. Estava prestes a perguntar para ele, se ele tinha alguma suspeita ou o que ele pensava daquele grupo de garotos estranhos que eu havia visto mais cedo no colégio. Entretanto, quando olhei ao meu redor, percebi que Gabriel, o garoto que foi brutalmente jogado em um armário, estava sentado um pouco distante da onde eu estava. Senti meu estômago embrulhar só de pensar na probabilidade dele ouvir ou então de perceber que eu estava falando sobre ele e de seus outros amigos.
Fiquei em silêncio por um tempo, e decidi voltar meus olhos para a quadra, mas quando desviei meu olhar para Gabriel novamente, percebi que ele não estava mais lá.
Perguntei a Alex como eu fazia para chegar ao estacionamento, e segui as informações, mesmo ele dizendo que, agora, eu teria que passar pelo caminho mais longo.
Já estava escuro quando cheguei ao estacionamento e, naturalmente, Heather não estava mais lá. Mas, pelo menos, agora eu já poderia sair do colégio.
Estava andando pelo local quando, de repente, notei que talvez eu não estivesse sozinha. Em algum lugar, comecei a ouvir sons estranhos, como se fossem gemidos. Meu instinto me obrigou a ir até aonde vinham os sons e, para minha sorte, sempre foi assim que eu arrumei encrencas.
Mesmo com pouca luz, consegui enxergar alguém que, pelo corpo, deveria ser um homem, segurava o corpo de Max, e mantinha o rosto escondido em seu pescoço. No início, senti meu rosto enrubescer e fiquei surpresa por ver Max no pensamento de algumas garotas mais cedo e, agora, vê-lo nos braços de alguém do mesmo sexo. Mas, depois percebi que ele parecia estar desacordado. Seu corpo parecia estar sem vida, amolecido nos braços do estranho e, ao mesmo tempo, ele soltava uns gemidos que iam ficando cada vez mais baixos.
Segurei com força minha arma, dentro do bolso secreto do sobretudo, mas, lembrei de que aquilo não era um fantasma. Horrorizada, e sem saber o que fazer, acabei soltando um suspiro alto o suficiente para o estranho estremecer e virar o rosto para mim.
Só então percebi que, mesmo que ele estivesse com os olhos vermelhos, e sangue escorrendo pelo seu rosto, eu o reconhecia. Ainda assim reconheci Gabriel.
Tirei a arma do bolso e apontei para ele, mesmo com as mãos trêmulas. Eu podia perfeitamente atirar em um fantasma, já que, na verdade, eles estavam mortos. Mas eu não era uma assassina. Eu nunca havia atirado – e nunca esperei – atirar em uma pessoa antes. Especialmente quando minhas balas são de sal.
Entretanto, não causei efeito nenhum sobre Gabriel. Mal tive tempo de vê-lo andando em minha direção e, logo, ele me empurrou para trás, fazendo com que minha arma caísse longe de mim. Assim que me levantei, ele continuou a querer me bater e, por mais rápida que eu fosse, ele parecia ter o dobro da minha velocidade, como se já estivesse planejando todos os lugares que ele poderia ter vantagem sobre mim.
Dei um soco em seu maxilar e isso fez com que ele se afastasse tempo suficiente para eu pegar minha arma e, embora com medo, atirei em seu ombro. Como eu havia previsto, ele não era um fantasma, então não desapareceu como todos os outros. Mas, de alguma maneira, a bala o fez sentir dor.
Ele me encarou com os olhos vermelhos de ódio e, em seguida saiu correndo entre as árvores que cercavam o colégio, sumindo na escuridão.
Meu coração estava acelerado e sentia o medo percorrer todo o meu corpo. Além de atirar em um humano, eu não conseguia explicar a coloração de seus olhos e o sangue de Max em seu rosto.
Corri em direção a Max e vi que, apesar de tudo, ele ainda respirava. Embora estivesse muito pálido e inconsciente. Com dificuldade, carreguei-o em minhas costas e fui andando em direção ao prédio principal, tentando conter a minha própria aflição.
Quando entrei, chamei por ajuda o mais alto que pude, até que alguns inspetores vieram correndo até onde estávamos. Eles me ajudaram a tirar Max de minhas costas – o que foi um alívio, pois como ele era forte e tinha uns músculos, pelo que consegui observar, ele era bastante pesado. – e o deixaram estendido no chão.
Alguns alunos que estavam voltando do treino de rugby vieram correndo ver o que havia acontecido e foram correndo chamar o diretor.
Logo os inspetores começaram a me fazer um monte de perguntas, mas meu cérebro não conseguiu prestar atenção em nenhuma delas.  Eu estava encarando Max com o cenho franzido e com muitas perguntas pulando em minha mente. Não havia prestado atenção na coincidência que estava vivenciando. Havia ouvido aquele garoto dizer para Gabriel, que a próxima vítima seria Max Stuart e, agora, eu não sabia o que realmente havia visto.  
O que houve aqui? – Pude me virar e ver um homem correndo em nossa direção. Atrás dele estava outro senhor e uma moça baixinha ao lado.
Eles pararam na frente de Max e logo se abaixaram para ver como ele estava. Assim que chegaram, alguns médicos vieram logo atrás.
Essa menina apareceu carregando Max nos ombros, e ele está desacordado e sangrando muito. – Um dos inspetores falou.
Todos viraram seus rostos para mim.
— O que aconteceu com Max? – O diretor perguntou para mim. – Ele estava brigando com alguém?
Senti todo o meu corpo tremer. O que eu poderia falar? Não tinha certeza mesmo do que eu havia visto. A ideia de ver Gabriel com o sangue de Max no rosto não fazia sentido em minha mente. E, ainda que fizesse, como eu contaria que tirei uma arma do meu bolso e o acertei? Além de ser expulsa da escola no meu primeiro dia de aula, seria presa.
Decidi que não falaria nada. Eu mesma iria acertar as coisas com Gabriel.
— Eu não sei. – Falei com a voz trêmula – eu estava passando quando o encontrei caído no chão.
— Aonde você o encontrou?
— No estacionamento.
— Você não viu se alguém estava saindo? Ou se tinha alguém com ele?
— Não. – Menti. – Ele estava sozinho e o estacionamento estava deserto.
— E o que você faz tão tarde na escola?
— Eu me perdi. – pigarreei – sou aluna nova, e perdi meu mapa.
Humm, certo, certo. – Ele pareceu confuso e ao mesmo tempo sem palavras. – De qualquer forma, não quero nem imaginar o que poderia ter acontecido se a senhorita não estivesse aqui. Obrigado. Agora, vamos curar essa testa.
Logo percebi que durante a briga, com certeza Gabriel deveria ter acabado com a boa aparência que eu tentava manter.
Não há nada de errado com ela. Foi só um arranhãozinho. – Disse já dando uns passos para trás, à procura da saída.
É claro que há, isso pode ficar bem feio. Vamos lá.
Assim que os médicos chegaram ao local, levaram Max e eu fui andando com ao diretor para o mini-hospital do colégio. Porém, um homem alto, com os cabelos negros e um cavanhaque, que estava ao lado do diretor no momento em que chegou, me olhava surpreso. Ele pareceu não acreditar em minha desculpa, e estava me sentindo incomodada com o fato de tê-lo olhando todo o tempo para mim. Mas, pelo menos me senti satisfeita por ele não ter perguntado como eu havia conseguido o machucado na testa.
Quando chegamos ao hospital, Max ficou deitado em uma cama enquanto médicos limpavam o ferimento em seu pescoço. Ouvi eles cochicharem sobre a possibilidade de um ataque animal, ou então uma briga com alguém armado por uma faca, ou algo do tipo.
 Enquanto eu passava pelo mesmo processo que Max, porém muito mais rápido.
Estava deitada quando o homem que me olhava se aproximou para ver se eu estava bem. Nesse momento, uma enfermeira já estava fazendo um curativo em minha testa.
Como se sente? – Ele perguntou.
Muito bem.
O senhor Stuart também está bem. Fiquei impressionado com o que fez por ele.
Por dentro, sorri pela ironia. Então aquele Max era, realmente, Max Stuart. A próxima vítima. E, agora, eu estava convicta de que estava acorrentada para sempre a essa história.
Estava pensando em agradecer ou pelo menos tentar parecer educada, quando a enfermeira puxou minha franja, expondo uma cicatriz que eu havia tentado esconder há algum tempo. O homem olhou surpreso para ela, mas não falou nada. Na mesma hora, eu coloquei minha mão na frente, voltando a escondê-la.
O que foi isso? – A enfermeira perguntou assustada.
Nada. Apenas um acidente, já está tudo bem. – Eu disse me levantando.
Mas e sua testa? – Ela disse nervosa.
Eu estou bem, não se preocupe.
E, na mesma hora larguei o hospital.
O problema em ir a lugares desconhecidos, é que depois você não sabe como faz para sair deles. Fiquei andando por um bom tempo pelo colégio, novamente, torcendo para achar a saída. Já estava escurecendo e eu estava começando a ficar com frio. Sabia que faltava muito pouco para voltar a chover novamente. Sem falar que, à noite, todas aquelas gárgulas e vitrais coloridos começavam a me causar arrepios.
Já estava começando a ficar com raiva de toda aquela chuva e de todo aqueles arcos e estilo assombrado, do colégio. Estava me sentindo em um verdadeiro labirinto. Todos os cenários pareciam iguais.
Alguns minutos depois, reconheci o estacionamento. Quase suspirei de alívio. E, para meu espanto, pude ver que ainda restavam alguns carros. Como não consegui encontrar quase ninguém pelo colégio?
Já estava quase saindo quando ouvi alguém me chamar. Quando olhei para trás pude ver George novamente, o que achei bem estranho.
George? O que está fazendo aqui? – Perguntei surpresa.
Eu pergunto o mesmo. – Ele disse sorrindo. – Não esperava encontrá-la aqui nesse horário. O que houve com sua testa? – Ele disse quase encostando em meu rosto, mas virei para evitá-lo, o que o deixou um pouco sem ação.
Não foi nada, só um pequeno acidente.
Você está bem?
Claro que estou.
Hum, certo... Você está de saída?
É, estou. – Disse pensativa. Não havia pensado em como iria embora.
Aceita uma carona? – ele disse sorrindo.
Como? – Arqueei a sobrancelha, sem acreditar na sorte.
Posso te deixar em casa, eu moro perto, lembra-se? – Ele disse sacudindo as chaves de seu carro.
Tudo bem. – Disse confusa. Não estava gostando da ideia de aceitar a carona de um desconhecido, mas também não teria como ir embora para casa depois.
George tinha um carro novinho. Nem sabia qual era o modelo, não era muito ligada a carros. Porém, pude imaginar que George tinha um bom gosto.
Você ainda não disse o que estava fazendo até essa hora no colégio. – perguntei quando entramos no carro.
Estava lendo um livro na biblioteca para o trabalho de inglês que é para daqui a duas semanas.
Aqui tem uma biblioteca? – Perguntei maravilhada, apesar de um colégio com uma biblioteca ser algo bem óbvio.
É claro que tem. – Ele disse com um sorriso torto, triunfante.
Onde fica?
No salão principal, ao lado da escada. É bem grande, não tem como errar.
Que legal. – Disse pensativa, imaginando se ela seria tão grande quanto a biblioteca que tínhamos em casa.
Você gosta de livros?
Adoro.
Qual seu escritor favorito?
Escritora, na verdade. Jane Austen. Conhece?
Claro, também gosto de alguns livros dela.
Mesmo? – Olhei para ele surpresa. Pode até ser uma ideia machista, mas eu não imagino um menino lendo os livros dela. – Quais?
Orgulho e Preconceito, esse é bem óbvio. Hum, A Abadia de Northanger... Entre outros. Não li todas as suas obras, só algumas.
Ah, entendo. Gosto muito dela. Depois de Orgulho e Preconceito, um dos meus favoritos é Emma.
É, acho que você gosta mesmo dela. – Ele soltou um risinho. – Mas eu prefiro Dickens.
Passamos o caminho todo trocando mais algumas palavras. Ele parecia ser bem legal, mas havia algo nele muito estranho. E estar em todos os lugares que eu era um dessas características esquisitas.
É aqui, não é? – Ele perguntou depois de um tempo. Então pude reconhecer a casa.
Sim, é bem aqui.
Eu moro aqui perto, qualquer coisa, conte comigo. – Ele disse sorrindo.
Ah, obrigada, George. Não sei como teria chegado aqui sem você. – Forcei um sorriso.
Não foi nada. – Ele sorriu. Aquele sorriso mesmo era de partir o coração de qualquer garota.
Ele esperou que parássemos em frente a casa e depois foi embora. Me abracei ao meu corpo para me proteger do frio, quando finalmente consegui abrir a casa, percebi que lá dentro também estava frio.
Ao ouvir o barulho da porta se fechando, tia Lucy desceu as escadas querendo saber o que havia acontecido. Ao ver-me, ela lançou os braços para cima e disse:
Brianna! Que bom vê-la! Estávamos todos muito preocupados.
Olá, tia Lucy. – Tentei parecer inocente.
Heather e Matt disseram que você havia sumido. O que houve?
Logo meu pai veio atrás dela.
O que houve com sua testa, querida? – Tia Lucy perguntou preocupada.
Ah, não foi nada demais, apenas tropecei e tive que ir para o mini-hospital do colégio, por isso me atrasei. Foi só um pequeno acidente.
Não é grave. – Meu pai disse – Lave e depois eu passo algo para melhorar. Preste atenção da próxima vez, Brianna. – Apesar de perceber que ele estava aliviado em saber que não havia acontecido nada demais comigo, sabia que ele estava um pouco aborrecido.
Porque não veio com Heather?
Eu me perdi. Não se preocupem, depois encontrei um colega e vim com ele.
Que colega?
Ele mora aqui perto. Bem, eu vou me trocar, estou cansada.
Subi as escadas e fui para o meu quarto. Quando olhei minha testa no espelho pude ver que não havia sido nada demais, realmente. Havia apenas uma marca roxa e um resto de sangue. Já havia conseguido muitas vezes machucados muito piores.
Porém, ao levantar minha franja, pude ver o contraste. Aquela cicatriz de fato era horrível e com certeza estragaria o meu rosto. Mas não queria fazer qualquer tipo de cirurgia plástica até poder escondê-la muito bem. Prometi a mim mesma que olharia para aquela cicatriz todas as vezes que esquecesse que o motivo da mudança era todo meu, e a culpa de nos separarmos de todos os conhecidos, acabando com os planos de minha mãe e envergonhando nosso nome, também seria minha culpa. E também que eu não era igual a todos os adolescentes de minha idade. Eu possuía algum tipo de dom. Apesar de que eu sempre soube que o sobrenatural não era um dom. Sempre encarei isso como uma maldição. A minha maldição. E esse era o meu fardo. E eu o carregaria para nunca mais esquecer que nós mesmos destruímos nossa própria felicidade.
Depois de limpar aquele outro machucado terrível e cada arranhão em meu corpo, eu decidi que já estava tarde demais para ficar acordada. Ao menos essa foi uma desculpa que inventei caso alguém aparecesse. Na verdade, eu sabia que quanto mais eu dormisse, menos eu me lembraria que ainda estávamos nessa casa. Então, se eu pudesse arrumar qualquer jeito de me livrar desses pensamentos, eu tentaria fugir. E dormir foi a única ideia até agora.
Porém, quando finalmente consegui dormir, pelo que eu me lembro, estava sonhando com um lugar completamente cinzento. Na verdade, eu estava perdida em um tipo de fazenda. Estava tudo escuro e eu sentia dificuldades para andar.
Eu estava abrindo caminho pelo mato, que batia até a altura do meu joelho, procurando alguma coisa. Só não sabia o que era.

Foi então que acordei mais uma vez com o barulho do despertador que já marcava 6 horas da manhã. Mas acordei assustada demais para me levantar logo e tentar me convencer de que havia sido apenas um sonho. Um sonho estranho e insignificante. Não havia motivos para me assustar, nada poderia me machucar, já que os piores pesadelos começavam, na verdade, agora, quando eu acordava e ia me arrumar para ir a um colégio que não era o meu, e me sentar à mesa dos Heaney para tomar o café da manhã.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Capitulo I


— Tenho certeza de que vocês vão adorar a casa. – Meu pai sorriu, nos olhando pelo retrovisor.
Suspirei. Se ele soubesse que até se nós estivéssemos nos mudando para a Casa Branca meu humor ainda assim não melhoraria, não teria tentado quebrar o silêncio. Então, a ideia de voltar para Wicklow certamente não me dava muitas opções de humor.
Fica muito longe da cidade? – Matt perguntou ajeitando os óculos.
Humm, um pouco. – Meu pai disse um tanto envergonhado. – Mas vocês irão adorar.
Como conseguiu a fazenda? – Matt continuou. Ele sempre gostava de interrogar as pessoas até dominar o assunto.
Pertencia a nossa família, na verdade. Está com uns primos meu. Eles dizem que é muito antigo. E o melhor de tudo é que saiu por um preço muito bacana!
Deve haver algo de errado com o lugar. – Disse mal humorada, e logo me arrependi. Não sei o que havia me levado a ser tão rude com meu pai.
Como assim? – Pude sentir a raiva começando a tomar conta dele.
Não vamos discutir isso de novo. Disse a mim mesma.
Ninguém vende algo por um preço tão barato sem que haja alguma coisa, hã... Errada, vamos assim dizer.
Ora, mas não há nada de errado! – Ele exclamou, e percebi que seu rosto estava começando a ficar vermelho – A fazenda está em perfeita condição e, além do mais, você se esquece de que é a nossa família, e...
Pai, nós mal vemos a nossa família. Esqueceu-se de que a parte da sua família é espalhada por toda a Irlanda?
Sim, mas mesmo assim somos uma família. Você está parecendo aquela egoísta da sua mãe dizendo que minha família são um bando de porcos hipócritas e esquisitos que não têm consideração com ninguém, e que só pensam no próprio umbigo, mas olhem, ela está absolutamente enganada e errada, e se...
Pai... – Matt disse assustado. Ele era o único que se sentia mal com as frequentes discussões entre nossos pais. Para mim, era só uma forma de demonstrarem o quanto ainda se importavam um com o outro.
Meus pais se separaram um pouco depois de eu nascer. Não sei muito bem o motivo, talvez não houvesse motivo algum. Simplesmente, aconteceu. Mas eu não sou nem um pouco problemática por causa disso. Apesar de que, às vezes, eles acham que essa é a única explicação para os meus problemas.
Talvez eles devessem se preocupar com o Matt, que vive trancado no quarto e é nerd.
Está bem, está bem. – Ele disse apertando o volante com mais força – Mas eles foram bem gentis conosco, Brianna.
Está bem. – Disse, enquanto ligava o rádio do carro e aumentava o volume. Senti a respiração de meu pai acelerada, e ele voltou a apertar o volante, enquanto a voz de Brian Johnson invadia nosso carro com Back In Black, mas não disse mais nada.
Voltei ao meu silêncio, enquanto alisava as orelhas de Alioth, minha gata Angorá negra. Minha mãe sempre me disse que Alioth apareceu em nossa casa, em Dublin, uma semana depois do meu nascimento e, com pena minha mãe acabou cuidando dela. Entretanto, por mais que tentasse fazer com que ela fosse embora nos dias seguintes, a gata sempre voltava. Então meu pai decidiu que ela poderia ficar conosco, pois a maioria dos seus familiares – Na verdade, os que ele conhecia – também haviam tido gatos pretos. Portanto, eu considerava Alioth como membro da nossa família.
Quando descobriu que iríamos morar com ele, papai ficou tão contente e surpreso, que fez questão de nos agradar. Queria muito que nós fossemos felizes, mesmo longe de tudo que estávamos acostumados. Por isso, largou o quarto do hotel em que morava, pois realmente era bem pequeno para nós três e não muito bonito para se passar a eternidade, e resolveu comprar uma antiga fazenda. O que foi estranho, pois eu nunca soube que meu pai tinha vocação para ser um agricultor. Mas, o fato é que ele estava ridiculamente encantando, e eu já deveria esperar por isso e agir com paciência. Talvez se eu me comportasse bem e não pensasse mais nisso, o tempo passaria mais rápido.
Olhando para toda aquela paisagem, eu finalmente soube que não haveria mais volta. As palavras de meu pai ecoavam em minha mente, se misturando com o barulho do vento lá fora, me fazendo lembrar, com lágrimas nos olhos, toda a cena daquele infeliz evento.
Longe das más influências, longe do vício.
As palavras pairavam em minha mente, absurdamente rápidas e claras. Sei que nunca me esqueceria disso, e de como eles estavam estupidamente enganados a respeito de tudo. Eu gostaria de contar toda a verdade, mesmo que eles me levassem para um hospício ao invés de Wicklow, mas eu não queria causar mais problemas para eles. A verdade, é que sempre fui um peso nas costas de ambos. Por mais que dissessem que me amassem e eu soubesse que era verdade, eu nunca fui o que eles queriam. Eu nunca poderia ter sido como minha amiga Catherine e todas as outras pessoas normais da minha antiga escola, mesmo que eles me aceitassem perfeitamente bem. Eu sabia que já estava fadada a andar com o meu grupo antes mesmo de nascer, pois eles eram filhos dos amigos dos meus pais e, assim como eles, o nome e as influências tinham um peso maior que a amizade. E eles sempre me acolheram de braços abertos, mas nunca fizeram questão de esconder o quanto minha imagem não era tão perfeita como a deles.
E, se eu já tinha fama de maluca, esquisita e rebelde, meus pais certamente teriam maus pensamentos de mim se soubessem a verdade. Talvez eles também achassem que eu era esquizofrênica.
Tentei conter as lágrimas. Tudo o que eu não queria agora era voltar ao mesmo assunto. Tirei esses pensamentos da mente, enquanto tentei, sem sucesso, me distrair com as coisas pelo caminho. No lado direito tudo que eu conseguia ver eram árvores e grama. Havia algumas casas também, mas estavam tão espalhadas que percebi que o terreno de cada uma delas era enorme. E a mesma coisa acontecia com o lado esquerdo. E já estávamos vendo as mesmas coisas há bastante tempo. Era bastante nítido porque o local era conhecido como “Jardim da Irlanda”.
Será que pode haver algo pior do que isso?
Em um momento de distração, percebi que algo diferente se destacava no meio de todo aquele verde. Olhei mais atentamente, tentando descobrir o que era. Mas o carro estava rápido demais, e todo aquele cenário verde, com várias árvores no caminho, não estava ajudando muito. Parecia um cavalo negro, mas era um animal grande demais e corria muito para um cavalo. Talvez ele fosse capaz de ultrapassar o nosso carro se corresse mais rápido. E cada vez mais que ele corria, mais desaparecia entre as árvores.
É logo ali. – Meu pai disse, com um sorriso enorme no rosto.
Senti um arrepio por todo o meu corpo e quase perdi a respiração quando avistei a casa. Ela parecia ser a maior casa do lugar, pelo menos foi o que eu observei desde que entramos no carro e viemos procurar isso. Apesar de ter sido reformada há bastante tempo, senti uma sensação estranha ao vê-la. E, ao longo dos meus dezesseis anos, eu aprendi a não ignorar meu sexto sentido a respeito de coisas estranhas. Tentei afastar o pensamento negativo e pensar que, talvez tenha tido essa sensação por causa do tempo nublado e chuvoso, que a deixava com a impressão de uma dessas casas velhas e abandonadas, e eu sentia dor nos olhos só de olhá-la. Era como se ela estivesse esperando por algum milagre. Mas eu sabia que não era apenas isso. Eu não poderia me enganar inventando desculpas. E temia pelo que pudesse haver lá dentro, à minha espera.
Eu estava mesmo muito ferrada.
Er, – meu pai pigarreou, e percebi que ele parecia estar escolhendo as palavras certas em sua mente para o que quer que viesse falar. – Os proprietários são minha prima Lucy, esposa do meu primo Edward, e eles têm uma filha de sua idade Brianna. Sua prima Heather.
Seu primo não havia falecido?
Sim, mas Lucy e sua filha não estão com boas condições financeiras para se mudarem. – Ele fez uma pausa. – Nós iremos morar com elas. – Ele disse devagar, como se não tivesse certeza se aquelas eram as palavras certas.
Morar com elas? Como assim morar com elas? Pensei que você tivesse comprado a casa. – Exclamei, surpresa.
Terei que pagar um aluguel, na verdade. – Ele pigarreou. – Mas será legal, assim poderemos ficar mais próximos de nossa família. Elas foram muito gentis conosco.
Certo. – Disse confusa, não conseguindo imaginar como seria dividir o meu futuro lar com pessoas da minha família que eram completamente estranhas para mim.
Depois de algum tempo, meu pai estacionou o carro perto da casa. Ficamos um tempo em silêncio, observando-a, enquanto uma mulher alta e corpulenta se aproximava do carro com os braços erguidos, pronunciando algo que não consegui entender.
Era uma casa de três andares, bastante alta e larga. Estava pintada de branco, com alguns degraus em frente a porta, e um jarro de flores, provavelmente artificiais, ao lado da porta de entrada. E, o que mais me chamou atenção, é que havia uma cruz de madeira bem em cima dessa porta.
Quando meu pai finalmente saiu do carro, tia Lucy veio de encontro a nós, ignorando a chuva que caía sobre eles.
Oh, Peter! Você não mudou muita coisa desde a última vez que nos vimos. Só está um pouco mais velho. – Ela disse sorrindo, apesar de que parecia não sorrir de verdade por muito tempo.
Muito tempo, Lucy. Muito tempo.
Sim. Pelo que me recordo você não era nem casado ainda. – Ela exclamou.
Que ótimo. Eles não se viam há mais de dezesseis anos.
Sim, é verdade. Estes são meus filhos, Brianna e Matthew.
Sejam bem vindos. – Ela disse com um sorriso apreensivo, e logo percebi que ela tinha um olhar cansado e alarmado. – A companhia de vocês será ótima. Seu pai já deve ter contado Brianna, mas você tem uma prima da mesma idade que você, e tenho certeza de que será uma boa companhia para ela também. Vivemos tão isoladas nessa casa.
Ela olhou para trás e logo ela fez um sinal para que Heather viesse até nós.
Mesmo longe, percebi que a menina revirou os olhos e veio andando devagar até onde estávamos.
Olá. – Ela disse seca. E pude perceber que ela estava com fones no ouvido.
Heather, este é seu tio Peter, e seus primos Brianna e Matthew.
Hmmm, sejam bem vindos. – Heather disse de má vontade.
Por algum motivo me senti incomodada. Não acreditava que era assim que estava sendo recebida por minha própria família. As palavras nada amistosas de minha mãe começavam a fazer sentido agora.
Tia Lucy – ainda com aquele sorriso enorme e abobado no rosto – nos convidou para entrar. Quando entramos na casa acendi a luz da sala para ter uma visão melhor. Esperei que quando entrasse em casa o lugar estaria mais aquecido. Entretanto, foi inevitável não sentir minha nuca gelar. Eu não deveria ficar surpresa, afinal, fazia parte do meu dom – que eu preferiria encarar como uma maldição – e isso nunca foi surpresa para mim. Entretanto, eu nunca havia morado numa casa mal assombrada antes.
Tentei disfarçar meu desconforto e abri a gaiola que trazia Alioth e a soltei na sala, enquanto olhava ao meu redor a procura de qualquer coisa estranha. Assim que ela saiu se espreguiçou, como se tivesse dormido a viagem inteira, mas não saiu do meu lado. Na verdade, eu percebi que ela estava tão tensa quanto eu. Talvez ela também não se sentisse bem em recomeçar uma vida em um lugar completamente diferente. Especialmente quando esse lugar traz uma sensação tão esquisita.
— Muito bem, Alioth, agora somos só eu e você. – Disse me abaixando para acariciar seu pelo negro e brilhoso. – Tenho certeza de que vamos superar isso, embora eu tenha alguns trabalhos para resolver.
Levantei meu rosto para observar o lugar. As cortinas cobriam as grandes janelas da sala, e única iluminação vinha de uma antiga lareira, e havia outra cruz enorme de madeira, que parecia ser muito pesada, pendurada na parede, logo em cima da lareira. O piso também era de uma madeira bem escura, e pude perceber que era muito antigo. Os móveis também pareciam ser muito antigos, mas também pareciam ter sido muito caros. Apesar de meu pai dizer que elas não estavam com uma boa situação financeira, a família de tia Lucy parecia ser muito rica.
Andei mais um pouco e entrei na cozinha, onde percebi que o piso e as paredes também eram muito antigos. Mais adiante, em uma parte mais isolada da cozinha, havia uma janela grande, com cortinas brancas. Na frente da janela, havia uma grande mesa de madeira, com uma toalha cor de vinho com detalhes dourados. Surpreendi-me ao ver que pratos e talheres de prata já estavam organizados sobre a mesa.
Voltei para sala, onde encontrei meu pai carregando algumas caixas.
Pode nos ajudar com as malas? – Ele perguntou.
Claro. – Voltei correndo para o carro e peguei minhas malas. Porém quando voltei para a casa, não resisti à curiosidade e larguei as malas em cima do sofá, ao lado de Alioth.
Minha tia parecia não gostar muito do cenário claro, pois toda casa não era muito bem iluminada, ou talvez fosse só o tempo nublado que a deixava muito sombria. Logo passei por um corredor que parecia ser a parte mais escura da casa. Havia vários quadros com moldura dourada por toda a parede, mas devido à falta de luz, não consegui ver o que retratavam. Havia algumas portas também. Tentei me aproximar de uma delas para abrir, mas quando estiquei minhas mãos, senti uma sensação esquisita, e minha nuca estava ficando mais fria, até meus cabelos se arrepiarem. Desisti de abri-la, mas sabia que minha primeira busca me traria a este corredor de volta. Estava quase me virando quando ouvi uma voz que eu já conhecia.
Não há nada aí. – Dei um pulo. Quando me virei, Heather parecia furiosa.
C-Como? – Eu perguntei assustada.
Está trancada desde que nos mudamos. Não há nada aí dentro. – Ela repetiu, impaciente.
Suspirei sem consegui dizer uma palavra, ainda embaraçada com a sua rápida aparição. Detesto ser pega de surpresa.
— Eu sou alérgica a gatos, por isso, espero que você não o deixe andando por aí. – Ela disse zangada e, logo, se virou e foi andando em direção à sala, com algumas malas.
Tive vontade de dizer a ela que Alioth era uma gata, e não um gato. E, depois, que eu pouco me importava com a sua alergia. Por mim, adoraria que, em uma de suas viagens noturnas, Alioth decidisse descansar na cama dela, bem ao seu lado.
Eu pedi a sua ajuda e você larga sua mala em cima do sofá! – Disse meu pai, assim que me viu.
Desculpe, não resisti à curiosidade. – Eu disse rindo, tentando me controlar da raiva que já sentia por Heather.
Peguei uma mala que escondia todos os meus segredos e agradeci por ninguém tê-la pego antes. Apesar de ter pouca idade, meu dom exigia que eu tivesse algumas armas necessárias para cumprir algumas tarefas e, apesar de meus pais terem descoberto e confiscado uma das minhas melhores armas, o que foi um dos motivos de nossa mudança, eu agradeci por eles nunca terem suspeitado do resto.
O que achou da casa?
Fria. – Disse desanimada, voltando a pegar minhas coisas para me livrar do olhar desapontado e curioso dele.
Logo depois tia Lucy apareceu com mais algumas malas, e pediu para que Heather me levasse até o meu quarto. Ela fez sinal para que eu a acompanhasse até a escada e, assim que coloquei meus pés no primeiro degrau, ela rangeu.
Muito bem, nada é perfeito. – Lembrei a mim mesma, mas Heather não pareceu gostar da brincadeira.
Subi as escadas devagar, prestando atenção em cada degrau para não cair. Mas no meio do caminho, senti novamente um frio em minha nuca, se estendendo para minha espinha, como se estivesse sendo observada. Mas quando olhei para trás, não havia ninguém, com exceção de Matt e Heather, que pareciam estar olhando para os degraus também.
Fiquei surpresa ao ver mais uma sala, só que dessa vez com sofás vermelhos e um lustre enorme no teto, e alguns objetos que ficavam no escritório antigo de meu pai. Um relógio antigo de madeira ficava parado e silencioso. Havia outra janela grande, com cortinas meio douradas misturadas com tons de marrom que, desta vez, não cobriam as janelas. Eu olhei boquiaberta para tudo aquilo. Era a sala mais bonita que eu já havia visto.
Havia mais dois banheiros nesse andar e, o mais interessante, foi que agora tínhamos uma biblioteca. Era enorme, com várias estantes cheias de livros e no centro de tudo, uma mesa com um computador moderno em cima.
Entrei para observar melhor, e Heather ficou encostada na porta, me esperando, ao lado de Matt. Mas não pareceu se incomodar, já que estava com seus fones.
Passei os dedos por todos os livros, apreciando todos os títulos, uma mania que sempre tive. Porém, ao passar os dedos em uma das estantes, percebi que eles ficaram negros por causa da poeira. Aqueles livros deveriam ser muito antigos. Mas, pelo menos, eu teria alguma chance de me acostumar a morar aqui, embora isso parecesse impossível.
O terceiro andar era um corredor bem simples, e reparei um relevo no tapete entre o início do corredor e o final do último degrau. Achei aquilo um pouco esquisito, e não sei se fui a única, mas como ninguém disse nada sobre aquilo, decidi ficar quieta. As únicas coisa que haviam eram várias portas e alguns quadros que também tinham molduras douradas e, dessa vez consegui ver que eles retratavam várias pessoas. O primeiro mostrava um baile, o segundo mostrava duas moças tomando chá em um jardim, o terceiro mostrava duas criancinhas, e os outros mostravam diversas pessoas. Meu quarto era o último, na terceira porta do lado direito, ao lado do de Matt. E o de Heather era em frente ao meu. Na parede que dividia meu quarto do de Matt, havia um quadro de um céu noturno, com o fundo meio arroxeado, cheio de estrelas. E na porta de Heather, havia outra cruz de madeira. Quando abri a porta fiquei fascinada.
Claro que em meu antigo quarto, eu possuía tudo que uma adolescente precisaria. Ele era rosa, uma relíquia de meus tempos de bailarina, eu tinha uma cama com um dossel combinando com todo o espaço de meu quarto. Havia um closet e um banheiro enorme. Próximo da janela havia um sofá branco, e vários pufes espalhados pelo quarto. Próximo ao sofá havia uma televisão de tela plana, com um DVD. As cortinas eram um tom de rosa mais escuro. Além de meus aparelhos de som, estante para livros e DVDs, quadros belíssimos, um computador só meu em cima de uma escrivaninha, e todos os outros eletrodomésticos necessários para uma adolescente.
Mas meu novo quarto bem menor. Era de um tom lilás meio desbotado, mas tinha personalidade, algo que meu antigo quarto não tinha. Na verdade, meu antigo quarto não parecia muito com o meu jeito. Meus novos móveis eram de madeira, inclusive a minha cama. Era uma cama de madeira bem escura e com vários detalhes. Havia também uma escrivaninha, uma janela ao lado de minha nova cama com cortinas brancas, de renda.
Entretanto, não pude deixar de sentir um frio esquisito naquele quarto. Um frio que, pela experiência, me indicava a existência de algo sobrenatural. Olhei ao meu redor, procurando por qualquer pista, mas não encontrei nada.
E se eu já não estava disposta a morar com fantasmas, certamente não estava nada satisfeita com a ideia de dividir meu quarto com um deles.
A casa era da mesma altura que a árvore que tinha em frente, então eu podia tocar em alguns galhos pela minha janela. E, na janela, havia um assento. Algo que adorei. A vista do meu quarto era muito bonita. Eu podia ver vários muros de pedra se misturar com todo aquele verde. O cenário perfeito da Irlanda.
Quando finalmente fiquei a sós, comecei a arrumar o quarto do meu jeito. Estaria sendo injusta se dissesse que meus familiares não estavam se esforçando para que nós nos adaptássemos a Wicklow. É claro que em casa eu teria algumas chances de me adaptar ao lugar. Mas, e no colégio? É certo que eu sempre tive muita facilidade de me comunicar com as pessoas, mas também tive muitas facilidades em arrumar problemas. Sem falar, que eu já estava acostumada com o mundo que vivia. Eu não podia, de repente, abandonar tudo e jogar todo o meu modo de enxergar as coisas para o alto, e começar tudo de novo.
Suspirei, largando minhas malas, e fui em direção ao assento da janela. Me sentei ao lado de Alioth, que estava apreciando a vista, e acariciei suas orelhas. Encostei minha cabeça na janela e fiquei olhando a chuva cair. Achei melhor não tentar mais prever meu novo futuro. Não importava como seria meu ano escolar, eu teria que superar isso.
Isso não é o fim do mundo, Brianna. Por mais que você se sinta à beira de um precipício.
O barulho de alguém batendo em minha porta me despertou de meus pensamentos e, pude reparar em algo branco espalhado por toda a extensão da janela, o que me assustou. Talvez as pessoas normais não prestariam muita atenção, mas eu sabia exatamente que aquilo era sal e também para o que estava sendo usado. Apenas não consegui entender como elas sabiam disso. Se houvesse algo de ruim – muito ruim, pelo visto – nesta casa, como tia Lucy e sua filha conseguiriam sobreviver com sal e várias cruzes espalhadas pela casa?
Mal consegui conter a surpresa de pensar que eu não poderia ser a única anormal da família. Talvez tia Lucy e Heather também conseguissem ver espíritos.
Não tive tempo para responder ou para desfazer minha expressão espantada no rosto, pois a porta levemente foi se abrindo e o rosto de meu pai apareceu. Talvez, ele estivesse curioso para saber o que eu estava fazendo trancada em meu quarto ao invés de participar da arrumação da casa e conhecer melhor minha família. Ou então ele sabia que eu estaria exatamente preocupada com um futuro incerto e com saudades de casa. Meu pai não era o tipo de pessoa que exigia explicações de você para tudo que você fizesse, mas, eu podia sentir o quanto ele estava preocupado com o meu comportamento nessa nova casa. E, além de tudo, eu sabia que ele estava preocupado com a minha felicidade. Mas era uma coisa estranha, já que eu sabia que não seria feliz aqui. E, ele também deveria saber disso. Porém, ele foi entrando sem dizer uma única palavra até parar em minha frente.
Já está com saudades de Dublin? – Ele disse um pouco tímido.
Bom, eu não queria responder que estava, porque na verdade eu não estava. Eu estava era com saudades de casa, da minha casa, e da minha mãe. E estava com medo de ficar nesta casa. Apenas queria ter minha vida de volta. Mas como eu podia dizer tudo isso a ele?
Então, tudo que fiz foi balançar a cabeça positivamente. Ele permaneceu um tempo em silêncio e logo continuou:
Mas não se preocupe. Você fará novos amigos aqui também. E você tem a mim e Matt, e uma nova família ao seu lado. Amanhã já vai começar suas aulas, e você irá conhecer gente nova. E, além disso, sua prima estará lá com você. Por que você não vai conversar com Heather agora?
Estou cansada.
Percebi que ele respirou bem fundo antes de continuar.
Certo, mas ainda acho que você poderia ir lá e conversar com ela. Iremos morar juntos agora. – Ele deu uma pausa, e após três longos minutos ele continuou – Só vim aqui para lhe dizer que estamos fazendo um lanche. Gostaria que participasse.
Claro. – Eu disse sem ânimo algum.
Que bom. – Ele disse sorrindo, passando seu braço pelos meus ombros.
Mas eu continuei sem falar nada. Então, eu senti que ele iria dizer mais alguma coisa, mas desistiu da ideia. Logo, fomos andando em direção à cozinha, onde todos estavam sentados em seus lugares e a mesa estava cheia de coisas gostosas. Mas meu estômago estava embrulhado e eu não conseguia sentir fome.
Depois de muito tempo ouvindo a conversa de tia Lucy com meu pai e Matt, decidi que já era hora de me deitar. Eu estava mesmo cansada, mas sabia que não iria conseguir dormir. Eu sempre demorava a dormir em camas que não eram a minha. E, agora, não era só a cama que era diferente. E sem falar no barulho da chuva, que eu podia ouvir batendo na janela de meu quarto.
Já estava quase atravessando a sala quando as luzes piscaram algumas vezes seguidas. Logo, senti mais uma vez minha nuca esfriar e, um vapor saiu de meus lábios. Sabia que aquilo não era nada bom e, instintivamente, apalpei meu quadril à procura de alguma coisa para defesa. Normalmente eu ando com um cinturão preso na cintura, mas não poderia aparecer com ele na frente de minha família. Meu pior erro foi descer desprotegida, sabendo que estava em uma casa nada normal.
Quando me virei, não havia nada fora do comum, mas minha nuca continuava fria. Continuei meu trajeto normalmente, na esperança de voltar para o meu quarto e usar alguma coisa que não fizesse barulho, mas antes que pudesse alcançar a escada, senti um vento frio percorrer toda a minha espinha e, me virei o mais rápido que pude. Não me surpreendi ao avistar um homem, com roupas bem antigas, e uma ferida no peito. Certamente deveria ter morrido baleado há muitos anos.
Odeio ser pega desprevenida, por isso, sempre que a situação piora para o meu lado, me preparo para dar uma boa surra nos fantasmas. Não que eu possa machucá-los de fato, e nem fazê-los seguir adiante. Mas, a alma ainda se lembra como é sentir dor e, assim, eu acabo ganhando mais tempo.
As luzes piscaram mais uma vez, assim que ele veio andando – quase se arrastando – em minha direção. As janelas da sala se abriram ao mesmo tempo, fazendo com que o vento espalhasse uns papéis que estavam em cima de uma mesa. Apertei meus pulsos com força, me preparando para o golpe, mas antes que eu pudesse atingi-lo, Heather apareceu por trás dele e o golpeou com um ferro que estava perto da lareira. Assim que o espetou, o fantasma se desmaterializou, e os papéis pararam de voar.
— Maldito. – Heather resmungou consigo mesma, enquanto colocava o ferro de volta na lareira. Logo se virou para mim, com a expressão zangada. – Esqueça o que acabou de ver, e caso aconteça de novo, saia correndo para o seu quarto.
— Não preciso correr para o meu quarto. – Devolvi o olhar gélido. – Como ficou sabendo deles?
— Cuide da sua vida, priminha. – Disse com a voz seca, arqueando a sobrancelha.
Logo tia Lucy, meu pai e Matt chegaram correndo até a sala.
— O que houve aqui? – Tia Lucy perguntou, seus olhos arregalados percorriam cada canto da sala. – Vocês estão bem?
— Foi só o vento que abriu as janelas e espalhou todos esses papéis. – Heather se abaixou e começou a catar os papéis, enquanto eu voltei para o meu quarto. Tudo o que eu não precisava era inventar desculpas também.
Quando cheguei ao corredor, percebi que Alioth estava dormindo em frente à porta do meu quarto. Por mais que eu sempre tivesse comprado caminhas de gato, ela sempre preferiu dormir em frente à minha porta, como se estivesse me protegendo de algo. Por isso, trouxe um puff para ela dormir. Sempre achei um comportamento esquisito, mas com o tempo acabei me acostumando aos modos estranhos de minha gata. Como as pessoas, ela também deveria ter as suas manias. E minha mãe sempre havia me dito que, desde que ela apareceu em nossa casa em Dublin, ela sempre dormia na frente do meu quarto.
Sempre soube que minha gata tinha um carinho especial por mim e eu me sentia muito orgulhosa por isso. Normalmente os animais escolhem só um dono para obedecer, e eu ficava satisfeita em saber que ela era esperta o suficiente por ter me escolhido.
Mas talvez fosse porque eu era a pessoa mais próxima dela na casa, já que minha mãe trabalhava e Matt estava sempre estudando. Sem falar que Alioth sabia do meu maior segredo, e tenho certeza de que ela também compartilhava desse dom comigo. Nas raras vezes que um fantasma se materializava em meu quarto, ela sempre estava presente, e ficava nos encarando. Não tinha dúvidas de que ela também poderia vê-los, afinal os animais também são muito sensitivos.
Pelo menos, assim nós não nos sentíamos sozinhas.
Rolei na cama durante um bom tempo. Não conseguia parar de pensar no que tinha acontecido e em como Heather havia conseguido fazer aquilo. Nunca iria imaginar que tão longe de onde eu morava, havia alguém da mesma idade, e da mesma família, que possuía os mesmos dons que eu. Será que poderia ser apenas coincidência?

Mesmo que ainda estivesse com uma sensação estranha, e que esta casa me causasse arrepios, mesmo com o barulho irritante da chuva, e mesmo que esta não fosse a minha cama, eu dormi.