segunda-feira, 10 de março de 2014

Capitulo I


— Tenho certeza de que vocês vão adorar a casa. – Meu pai sorriu, nos olhando pelo retrovisor.
Suspirei. Se ele soubesse que até se nós estivéssemos nos mudando para a Casa Branca meu humor ainda assim não melhoraria, não teria tentado quebrar o silêncio. Então, a ideia de voltar para Wicklow certamente não me dava muitas opções de humor.
Fica muito longe da cidade? – Matt perguntou ajeitando os óculos.
Humm, um pouco. – Meu pai disse um tanto envergonhado. – Mas vocês irão adorar.
Como conseguiu a fazenda? – Matt continuou. Ele sempre gostava de interrogar as pessoas até dominar o assunto.
Pertencia a nossa família, na verdade. Está com uns primos meu. Eles dizem que é muito antigo. E o melhor de tudo é que saiu por um preço muito bacana!
Deve haver algo de errado com o lugar. – Disse mal humorada, e logo me arrependi. Não sei o que havia me levado a ser tão rude com meu pai.
Como assim? – Pude sentir a raiva começando a tomar conta dele.
Não vamos discutir isso de novo. Disse a mim mesma.
Ninguém vende algo por um preço tão barato sem que haja alguma coisa, hã... Errada, vamos assim dizer.
Ora, mas não há nada de errado! – Ele exclamou, e percebi que seu rosto estava começando a ficar vermelho – A fazenda está em perfeita condição e, além do mais, você se esquece de que é a nossa família, e...
Pai, nós mal vemos a nossa família. Esqueceu-se de que a parte da sua família é espalhada por toda a Irlanda?
Sim, mas mesmo assim somos uma família. Você está parecendo aquela egoísta da sua mãe dizendo que minha família são um bando de porcos hipócritas e esquisitos que não têm consideração com ninguém, e que só pensam no próprio umbigo, mas olhem, ela está absolutamente enganada e errada, e se...
Pai... – Matt disse assustado. Ele era o único que se sentia mal com as frequentes discussões entre nossos pais. Para mim, era só uma forma de demonstrarem o quanto ainda se importavam um com o outro.
Meus pais se separaram um pouco depois de eu nascer. Não sei muito bem o motivo, talvez não houvesse motivo algum. Simplesmente, aconteceu. Mas eu não sou nem um pouco problemática por causa disso. Apesar de que, às vezes, eles acham que essa é a única explicação para os meus problemas.
Talvez eles devessem se preocupar com o Matt, que vive trancado no quarto e é nerd.
Está bem, está bem. – Ele disse apertando o volante com mais força – Mas eles foram bem gentis conosco, Brianna.
Está bem. – Disse, enquanto ligava o rádio do carro e aumentava o volume. Senti a respiração de meu pai acelerada, e ele voltou a apertar o volante, enquanto a voz de Brian Johnson invadia nosso carro com Back In Black, mas não disse mais nada.
Voltei ao meu silêncio, enquanto alisava as orelhas de Alioth, minha gata Angorá negra. Minha mãe sempre me disse que Alioth apareceu em nossa casa, em Dublin, uma semana depois do meu nascimento e, com pena minha mãe acabou cuidando dela. Entretanto, por mais que tentasse fazer com que ela fosse embora nos dias seguintes, a gata sempre voltava. Então meu pai decidiu que ela poderia ficar conosco, pois a maioria dos seus familiares – Na verdade, os que ele conhecia – também haviam tido gatos pretos. Portanto, eu considerava Alioth como membro da nossa família.
Quando descobriu que iríamos morar com ele, papai ficou tão contente e surpreso, que fez questão de nos agradar. Queria muito que nós fossemos felizes, mesmo longe de tudo que estávamos acostumados. Por isso, largou o quarto do hotel em que morava, pois realmente era bem pequeno para nós três e não muito bonito para se passar a eternidade, e resolveu comprar uma antiga fazenda. O que foi estranho, pois eu nunca soube que meu pai tinha vocação para ser um agricultor. Mas, o fato é que ele estava ridiculamente encantando, e eu já deveria esperar por isso e agir com paciência. Talvez se eu me comportasse bem e não pensasse mais nisso, o tempo passaria mais rápido.
Olhando para toda aquela paisagem, eu finalmente soube que não haveria mais volta. As palavras de meu pai ecoavam em minha mente, se misturando com o barulho do vento lá fora, me fazendo lembrar, com lágrimas nos olhos, toda a cena daquele infeliz evento.
Longe das más influências, longe do vício.
As palavras pairavam em minha mente, absurdamente rápidas e claras. Sei que nunca me esqueceria disso, e de como eles estavam estupidamente enganados a respeito de tudo. Eu gostaria de contar toda a verdade, mesmo que eles me levassem para um hospício ao invés de Wicklow, mas eu não queria causar mais problemas para eles. A verdade, é que sempre fui um peso nas costas de ambos. Por mais que dissessem que me amassem e eu soubesse que era verdade, eu nunca fui o que eles queriam. Eu nunca poderia ter sido como minha amiga Catherine e todas as outras pessoas normais da minha antiga escola, mesmo que eles me aceitassem perfeitamente bem. Eu sabia que já estava fadada a andar com o meu grupo antes mesmo de nascer, pois eles eram filhos dos amigos dos meus pais e, assim como eles, o nome e as influências tinham um peso maior que a amizade. E eles sempre me acolheram de braços abertos, mas nunca fizeram questão de esconder o quanto minha imagem não era tão perfeita como a deles.
E, se eu já tinha fama de maluca, esquisita e rebelde, meus pais certamente teriam maus pensamentos de mim se soubessem a verdade. Talvez eles também achassem que eu era esquizofrênica.
Tentei conter as lágrimas. Tudo o que eu não queria agora era voltar ao mesmo assunto. Tirei esses pensamentos da mente, enquanto tentei, sem sucesso, me distrair com as coisas pelo caminho. No lado direito tudo que eu conseguia ver eram árvores e grama. Havia algumas casas também, mas estavam tão espalhadas que percebi que o terreno de cada uma delas era enorme. E a mesma coisa acontecia com o lado esquerdo. E já estávamos vendo as mesmas coisas há bastante tempo. Era bastante nítido porque o local era conhecido como “Jardim da Irlanda”.
Será que pode haver algo pior do que isso?
Em um momento de distração, percebi que algo diferente se destacava no meio de todo aquele verde. Olhei mais atentamente, tentando descobrir o que era. Mas o carro estava rápido demais, e todo aquele cenário verde, com várias árvores no caminho, não estava ajudando muito. Parecia um cavalo negro, mas era um animal grande demais e corria muito para um cavalo. Talvez ele fosse capaz de ultrapassar o nosso carro se corresse mais rápido. E cada vez mais que ele corria, mais desaparecia entre as árvores.
É logo ali. – Meu pai disse, com um sorriso enorme no rosto.
Senti um arrepio por todo o meu corpo e quase perdi a respiração quando avistei a casa. Ela parecia ser a maior casa do lugar, pelo menos foi o que eu observei desde que entramos no carro e viemos procurar isso. Apesar de ter sido reformada há bastante tempo, senti uma sensação estranha ao vê-la. E, ao longo dos meus dezesseis anos, eu aprendi a não ignorar meu sexto sentido a respeito de coisas estranhas. Tentei afastar o pensamento negativo e pensar que, talvez tenha tido essa sensação por causa do tempo nublado e chuvoso, que a deixava com a impressão de uma dessas casas velhas e abandonadas, e eu sentia dor nos olhos só de olhá-la. Era como se ela estivesse esperando por algum milagre. Mas eu sabia que não era apenas isso. Eu não poderia me enganar inventando desculpas. E temia pelo que pudesse haver lá dentro, à minha espera.
Eu estava mesmo muito ferrada.
Er, – meu pai pigarreou, e percebi que ele parecia estar escolhendo as palavras certas em sua mente para o que quer que viesse falar. – Os proprietários são minha prima Lucy, esposa do meu primo Edward, e eles têm uma filha de sua idade Brianna. Sua prima Heather.
Seu primo não havia falecido?
Sim, mas Lucy e sua filha não estão com boas condições financeiras para se mudarem. – Ele fez uma pausa. – Nós iremos morar com elas. – Ele disse devagar, como se não tivesse certeza se aquelas eram as palavras certas.
Morar com elas? Como assim morar com elas? Pensei que você tivesse comprado a casa. – Exclamei, surpresa.
Terei que pagar um aluguel, na verdade. – Ele pigarreou. – Mas será legal, assim poderemos ficar mais próximos de nossa família. Elas foram muito gentis conosco.
Certo. – Disse confusa, não conseguindo imaginar como seria dividir o meu futuro lar com pessoas da minha família que eram completamente estranhas para mim.
Depois de algum tempo, meu pai estacionou o carro perto da casa. Ficamos um tempo em silêncio, observando-a, enquanto uma mulher alta e corpulenta se aproximava do carro com os braços erguidos, pronunciando algo que não consegui entender.
Era uma casa de três andares, bastante alta e larga. Estava pintada de branco, com alguns degraus em frente a porta, e um jarro de flores, provavelmente artificiais, ao lado da porta de entrada. E, o que mais me chamou atenção, é que havia uma cruz de madeira bem em cima dessa porta.
Quando meu pai finalmente saiu do carro, tia Lucy veio de encontro a nós, ignorando a chuva que caía sobre eles.
Oh, Peter! Você não mudou muita coisa desde a última vez que nos vimos. Só está um pouco mais velho. – Ela disse sorrindo, apesar de que parecia não sorrir de verdade por muito tempo.
Muito tempo, Lucy. Muito tempo.
Sim. Pelo que me recordo você não era nem casado ainda. – Ela exclamou.
Que ótimo. Eles não se viam há mais de dezesseis anos.
Sim, é verdade. Estes são meus filhos, Brianna e Matthew.
Sejam bem vindos. – Ela disse com um sorriso apreensivo, e logo percebi que ela tinha um olhar cansado e alarmado. – A companhia de vocês será ótima. Seu pai já deve ter contado Brianna, mas você tem uma prima da mesma idade que você, e tenho certeza de que será uma boa companhia para ela também. Vivemos tão isoladas nessa casa.
Ela olhou para trás e logo ela fez um sinal para que Heather viesse até nós.
Mesmo longe, percebi que a menina revirou os olhos e veio andando devagar até onde estávamos.
Olá. – Ela disse seca. E pude perceber que ela estava com fones no ouvido.
Heather, este é seu tio Peter, e seus primos Brianna e Matthew.
Hmmm, sejam bem vindos. – Heather disse de má vontade.
Por algum motivo me senti incomodada. Não acreditava que era assim que estava sendo recebida por minha própria família. As palavras nada amistosas de minha mãe começavam a fazer sentido agora.
Tia Lucy – ainda com aquele sorriso enorme e abobado no rosto – nos convidou para entrar. Quando entramos na casa acendi a luz da sala para ter uma visão melhor. Esperei que quando entrasse em casa o lugar estaria mais aquecido. Entretanto, foi inevitável não sentir minha nuca gelar. Eu não deveria ficar surpresa, afinal, fazia parte do meu dom – que eu preferiria encarar como uma maldição – e isso nunca foi surpresa para mim. Entretanto, eu nunca havia morado numa casa mal assombrada antes.
Tentei disfarçar meu desconforto e abri a gaiola que trazia Alioth e a soltei na sala, enquanto olhava ao meu redor a procura de qualquer coisa estranha. Assim que ela saiu se espreguiçou, como se tivesse dormido a viagem inteira, mas não saiu do meu lado. Na verdade, eu percebi que ela estava tão tensa quanto eu. Talvez ela também não se sentisse bem em recomeçar uma vida em um lugar completamente diferente. Especialmente quando esse lugar traz uma sensação tão esquisita.
— Muito bem, Alioth, agora somos só eu e você. – Disse me abaixando para acariciar seu pelo negro e brilhoso. – Tenho certeza de que vamos superar isso, embora eu tenha alguns trabalhos para resolver.
Levantei meu rosto para observar o lugar. As cortinas cobriam as grandes janelas da sala, e única iluminação vinha de uma antiga lareira, e havia outra cruz enorme de madeira, que parecia ser muito pesada, pendurada na parede, logo em cima da lareira. O piso também era de uma madeira bem escura, e pude perceber que era muito antigo. Os móveis também pareciam ser muito antigos, mas também pareciam ter sido muito caros. Apesar de meu pai dizer que elas não estavam com uma boa situação financeira, a família de tia Lucy parecia ser muito rica.
Andei mais um pouco e entrei na cozinha, onde percebi que o piso e as paredes também eram muito antigos. Mais adiante, em uma parte mais isolada da cozinha, havia uma janela grande, com cortinas brancas. Na frente da janela, havia uma grande mesa de madeira, com uma toalha cor de vinho com detalhes dourados. Surpreendi-me ao ver que pratos e talheres de prata já estavam organizados sobre a mesa.
Voltei para sala, onde encontrei meu pai carregando algumas caixas.
Pode nos ajudar com as malas? – Ele perguntou.
Claro. – Voltei correndo para o carro e peguei minhas malas. Porém quando voltei para a casa, não resisti à curiosidade e larguei as malas em cima do sofá, ao lado de Alioth.
Minha tia parecia não gostar muito do cenário claro, pois toda casa não era muito bem iluminada, ou talvez fosse só o tempo nublado que a deixava muito sombria. Logo passei por um corredor que parecia ser a parte mais escura da casa. Havia vários quadros com moldura dourada por toda a parede, mas devido à falta de luz, não consegui ver o que retratavam. Havia algumas portas também. Tentei me aproximar de uma delas para abrir, mas quando estiquei minhas mãos, senti uma sensação esquisita, e minha nuca estava ficando mais fria, até meus cabelos se arrepiarem. Desisti de abri-la, mas sabia que minha primeira busca me traria a este corredor de volta. Estava quase me virando quando ouvi uma voz que eu já conhecia.
Não há nada aí. – Dei um pulo. Quando me virei, Heather parecia furiosa.
C-Como? – Eu perguntei assustada.
Está trancada desde que nos mudamos. Não há nada aí dentro. – Ela repetiu, impaciente.
Suspirei sem consegui dizer uma palavra, ainda embaraçada com a sua rápida aparição. Detesto ser pega de surpresa.
— Eu sou alérgica a gatos, por isso, espero que você não o deixe andando por aí. – Ela disse zangada e, logo, se virou e foi andando em direção à sala, com algumas malas.
Tive vontade de dizer a ela que Alioth era uma gata, e não um gato. E, depois, que eu pouco me importava com a sua alergia. Por mim, adoraria que, em uma de suas viagens noturnas, Alioth decidisse descansar na cama dela, bem ao seu lado.
Eu pedi a sua ajuda e você larga sua mala em cima do sofá! – Disse meu pai, assim que me viu.
Desculpe, não resisti à curiosidade. – Eu disse rindo, tentando me controlar da raiva que já sentia por Heather.
Peguei uma mala que escondia todos os meus segredos e agradeci por ninguém tê-la pego antes. Apesar de ter pouca idade, meu dom exigia que eu tivesse algumas armas necessárias para cumprir algumas tarefas e, apesar de meus pais terem descoberto e confiscado uma das minhas melhores armas, o que foi um dos motivos de nossa mudança, eu agradeci por eles nunca terem suspeitado do resto.
O que achou da casa?
Fria. – Disse desanimada, voltando a pegar minhas coisas para me livrar do olhar desapontado e curioso dele.
Logo depois tia Lucy apareceu com mais algumas malas, e pediu para que Heather me levasse até o meu quarto. Ela fez sinal para que eu a acompanhasse até a escada e, assim que coloquei meus pés no primeiro degrau, ela rangeu.
Muito bem, nada é perfeito. – Lembrei a mim mesma, mas Heather não pareceu gostar da brincadeira.
Subi as escadas devagar, prestando atenção em cada degrau para não cair. Mas no meio do caminho, senti novamente um frio em minha nuca, se estendendo para minha espinha, como se estivesse sendo observada. Mas quando olhei para trás, não havia ninguém, com exceção de Matt e Heather, que pareciam estar olhando para os degraus também.
Fiquei surpresa ao ver mais uma sala, só que dessa vez com sofás vermelhos e um lustre enorme no teto, e alguns objetos que ficavam no escritório antigo de meu pai. Um relógio antigo de madeira ficava parado e silencioso. Havia outra janela grande, com cortinas meio douradas misturadas com tons de marrom que, desta vez, não cobriam as janelas. Eu olhei boquiaberta para tudo aquilo. Era a sala mais bonita que eu já havia visto.
Havia mais dois banheiros nesse andar e, o mais interessante, foi que agora tínhamos uma biblioteca. Era enorme, com várias estantes cheias de livros e no centro de tudo, uma mesa com um computador moderno em cima.
Entrei para observar melhor, e Heather ficou encostada na porta, me esperando, ao lado de Matt. Mas não pareceu se incomodar, já que estava com seus fones.
Passei os dedos por todos os livros, apreciando todos os títulos, uma mania que sempre tive. Porém, ao passar os dedos em uma das estantes, percebi que eles ficaram negros por causa da poeira. Aqueles livros deveriam ser muito antigos. Mas, pelo menos, eu teria alguma chance de me acostumar a morar aqui, embora isso parecesse impossível.
O terceiro andar era um corredor bem simples, e reparei um relevo no tapete entre o início do corredor e o final do último degrau. Achei aquilo um pouco esquisito, e não sei se fui a única, mas como ninguém disse nada sobre aquilo, decidi ficar quieta. As únicas coisa que haviam eram várias portas e alguns quadros que também tinham molduras douradas e, dessa vez consegui ver que eles retratavam várias pessoas. O primeiro mostrava um baile, o segundo mostrava duas moças tomando chá em um jardim, o terceiro mostrava duas criancinhas, e os outros mostravam diversas pessoas. Meu quarto era o último, na terceira porta do lado direito, ao lado do de Matt. E o de Heather era em frente ao meu. Na parede que dividia meu quarto do de Matt, havia um quadro de um céu noturno, com o fundo meio arroxeado, cheio de estrelas. E na porta de Heather, havia outra cruz de madeira. Quando abri a porta fiquei fascinada.
Claro que em meu antigo quarto, eu possuía tudo que uma adolescente precisaria. Ele era rosa, uma relíquia de meus tempos de bailarina, eu tinha uma cama com um dossel combinando com todo o espaço de meu quarto. Havia um closet e um banheiro enorme. Próximo da janela havia um sofá branco, e vários pufes espalhados pelo quarto. Próximo ao sofá havia uma televisão de tela plana, com um DVD. As cortinas eram um tom de rosa mais escuro. Além de meus aparelhos de som, estante para livros e DVDs, quadros belíssimos, um computador só meu em cima de uma escrivaninha, e todos os outros eletrodomésticos necessários para uma adolescente.
Mas meu novo quarto bem menor. Era de um tom lilás meio desbotado, mas tinha personalidade, algo que meu antigo quarto não tinha. Na verdade, meu antigo quarto não parecia muito com o meu jeito. Meus novos móveis eram de madeira, inclusive a minha cama. Era uma cama de madeira bem escura e com vários detalhes. Havia também uma escrivaninha, uma janela ao lado de minha nova cama com cortinas brancas, de renda.
Entretanto, não pude deixar de sentir um frio esquisito naquele quarto. Um frio que, pela experiência, me indicava a existência de algo sobrenatural. Olhei ao meu redor, procurando por qualquer pista, mas não encontrei nada.
E se eu já não estava disposta a morar com fantasmas, certamente não estava nada satisfeita com a ideia de dividir meu quarto com um deles.
A casa era da mesma altura que a árvore que tinha em frente, então eu podia tocar em alguns galhos pela minha janela. E, na janela, havia um assento. Algo que adorei. A vista do meu quarto era muito bonita. Eu podia ver vários muros de pedra se misturar com todo aquele verde. O cenário perfeito da Irlanda.
Quando finalmente fiquei a sós, comecei a arrumar o quarto do meu jeito. Estaria sendo injusta se dissesse que meus familiares não estavam se esforçando para que nós nos adaptássemos a Wicklow. É claro que em casa eu teria algumas chances de me adaptar ao lugar. Mas, e no colégio? É certo que eu sempre tive muita facilidade de me comunicar com as pessoas, mas também tive muitas facilidades em arrumar problemas. Sem falar, que eu já estava acostumada com o mundo que vivia. Eu não podia, de repente, abandonar tudo e jogar todo o meu modo de enxergar as coisas para o alto, e começar tudo de novo.
Suspirei, largando minhas malas, e fui em direção ao assento da janela. Me sentei ao lado de Alioth, que estava apreciando a vista, e acariciei suas orelhas. Encostei minha cabeça na janela e fiquei olhando a chuva cair. Achei melhor não tentar mais prever meu novo futuro. Não importava como seria meu ano escolar, eu teria que superar isso.
Isso não é o fim do mundo, Brianna. Por mais que você se sinta à beira de um precipício.
O barulho de alguém batendo em minha porta me despertou de meus pensamentos e, pude reparar em algo branco espalhado por toda a extensão da janela, o que me assustou. Talvez as pessoas normais não prestariam muita atenção, mas eu sabia exatamente que aquilo era sal e também para o que estava sendo usado. Apenas não consegui entender como elas sabiam disso. Se houvesse algo de ruim – muito ruim, pelo visto – nesta casa, como tia Lucy e sua filha conseguiriam sobreviver com sal e várias cruzes espalhadas pela casa?
Mal consegui conter a surpresa de pensar que eu não poderia ser a única anormal da família. Talvez tia Lucy e Heather também conseguissem ver espíritos.
Não tive tempo para responder ou para desfazer minha expressão espantada no rosto, pois a porta levemente foi se abrindo e o rosto de meu pai apareceu. Talvez, ele estivesse curioso para saber o que eu estava fazendo trancada em meu quarto ao invés de participar da arrumação da casa e conhecer melhor minha família. Ou então ele sabia que eu estaria exatamente preocupada com um futuro incerto e com saudades de casa. Meu pai não era o tipo de pessoa que exigia explicações de você para tudo que você fizesse, mas, eu podia sentir o quanto ele estava preocupado com o meu comportamento nessa nova casa. E, além de tudo, eu sabia que ele estava preocupado com a minha felicidade. Mas era uma coisa estranha, já que eu sabia que não seria feliz aqui. E, ele também deveria saber disso. Porém, ele foi entrando sem dizer uma única palavra até parar em minha frente.
Já está com saudades de Dublin? – Ele disse um pouco tímido.
Bom, eu não queria responder que estava, porque na verdade eu não estava. Eu estava era com saudades de casa, da minha casa, e da minha mãe. E estava com medo de ficar nesta casa. Apenas queria ter minha vida de volta. Mas como eu podia dizer tudo isso a ele?
Então, tudo que fiz foi balançar a cabeça positivamente. Ele permaneceu um tempo em silêncio e logo continuou:
Mas não se preocupe. Você fará novos amigos aqui também. E você tem a mim e Matt, e uma nova família ao seu lado. Amanhã já vai começar suas aulas, e você irá conhecer gente nova. E, além disso, sua prima estará lá com você. Por que você não vai conversar com Heather agora?
Estou cansada.
Percebi que ele respirou bem fundo antes de continuar.
Certo, mas ainda acho que você poderia ir lá e conversar com ela. Iremos morar juntos agora. – Ele deu uma pausa, e após três longos minutos ele continuou – Só vim aqui para lhe dizer que estamos fazendo um lanche. Gostaria que participasse.
Claro. – Eu disse sem ânimo algum.
Que bom. – Ele disse sorrindo, passando seu braço pelos meus ombros.
Mas eu continuei sem falar nada. Então, eu senti que ele iria dizer mais alguma coisa, mas desistiu da ideia. Logo, fomos andando em direção à cozinha, onde todos estavam sentados em seus lugares e a mesa estava cheia de coisas gostosas. Mas meu estômago estava embrulhado e eu não conseguia sentir fome.
Depois de muito tempo ouvindo a conversa de tia Lucy com meu pai e Matt, decidi que já era hora de me deitar. Eu estava mesmo cansada, mas sabia que não iria conseguir dormir. Eu sempre demorava a dormir em camas que não eram a minha. E, agora, não era só a cama que era diferente. E sem falar no barulho da chuva, que eu podia ouvir batendo na janela de meu quarto.
Já estava quase atravessando a sala quando as luzes piscaram algumas vezes seguidas. Logo, senti mais uma vez minha nuca esfriar e, um vapor saiu de meus lábios. Sabia que aquilo não era nada bom e, instintivamente, apalpei meu quadril à procura de alguma coisa para defesa. Normalmente eu ando com um cinturão preso na cintura, mas não poderia aparecer com ele na frente de minha família. Meu pior erro foi descer desprotegida, sabendo que estava em uma casa nada normal.
Quando me virei, não havia nada fora do comum, mas minha nuca continuava fria. Continuei meu trajeto normalmente, na esperança de voltar para o meu quarto e usar alguma coisa que não fizesse barulho, mas antes que pudesse alcançar a escada, senti um vento frio percorrer toda a minha espinha e, me virei o mais rápido que pude. Não me surpreendi ao avistar um homem, com roupas bem antigas, e uma ferida no peito. Certamente deveria ter morrido baleado há muitos anos.
Odeio ser pega desprevenida, por isso, sempre que a situação piora para o meu lado, me preparo para dar uma boa surra nos fantasmas. Não que eu possa machucá-los de fato, e nem fazê-los seguir adiante. Mas, a alma ainda se lembra como é sentir dor e, assim, eu acabo ganhando mais tempo.
As luzes piscaram mais uma vez, assim que ele veio andando – quase se arrastando – em minha direção. As janelas da sala se abriram ao mesmo tempo, fazendo com que o vento espalhasse uns papéis que estavam em cima de uma mesa. Apertei meus pulsos com força, me preparando para o golpe, mas antes que eu pudesse atingi-lo, Heather apareceu por trás dele e o golpeou com um ferro que estava perto da lareira. Assim que o espetou, o fantasma se desmaterializou, e os papéis pararam de voar.
— Maldito. – Heather resmungou consigo mesma, enquanto colocava o ferro de volta na lareira. Logo se virou para mim, com a expressão zangada. – Esqueça o que acabou de ver, e caso aconteça de novo, saia correndo para o seu quarto.
— Não preciso correr para o meu quarto. – Devolvi o olhar gélido. – Como ficou sabendo deles?
— Cuide da sua vida, priminha. – Disse com a voz seca, arqueando a sobrancelha.
Logo tia Lucy, meu pai e Matt chegaram correndo até a sala.
— O que houve aqui? – Tia Lucy perguntou, seus olhos arregalados percorriam cada canto da sala. – Vocês estão bem?
— Foi só o vento que abriu as janelas e espalhou todos esses papéis. – Heather se abaixou e começou a catar os papéis, enquanto eu voltei para o meu quarto. Tudo o que eu não precisava era inventar desculpas também.
Quando cheguei ao corredor, percebi que Alioth estava dormindo em frente à porta do meu quarto. Por mais que eu sempre tivesse comprado caminhas de gato, ela sempre preferiu dormir em frente à minha porta, como se estivesse me protegendo de algo. Por isso, trouxe um puff para ela dormir. Sempre achei um comportamento esquisito, mas com o tempo acabei me acostumando aos modos estranhos de minha gata. Como as pessoas, ela também deveria ter as suas manias. E minha mãe sempre havia me dito que, desde que ela apareceu em nossa casa em Dublin, ela sempre dormia na frente do meu quarto.
Sempre soube que minha gata tinha um carinho especial por mim e eu me sentia muito orgulhosa por isso. Normalmente os animais escolhem só um dono para obedecer, e eu ficava satisfeita em saber que ela era esperta o suficiente por ter me escolhido.
Mas talvez fosse porque eu era a pessoa mais próxima dela na casa, já que minha mãe trabalhava e Matt estava sempre estudando. Sem falar que Alioth sabia do meu maior segredo, e tenho certeza de que ela também compartilhava desse dom comigo. Nas raras vezes que um fantasma se materializava em meu quarto, ela sempre estava presente, e ficava nos encarando. Não tinha dúvidas de que ela também poderia vê-los, afinal os animais também são muito sensitivos.
Pelo menos, assim nós não nos sentíamos sozinhas.
Rolei na cama durante um bom tempo. Não conseguia parar de pensar no que tinha acontecido e em como Heather havia conseguido fazer aquilo. Nunca iria imaginar que tão longe de onde eu morava, havia alguém da mesma idade, e da mesma família, que possuía os mesmos dons que eu. Será que poderia ser apenas coincidência?

Mesmo que ainda estivesse com uma sensação estranha, e que esta casa me causasse arrepios, mesmo com o barulho irritante da chuva, e mesmo que esta não fosse a minha cama, eu dormi.

2 comentários:

  1. Eu fico procurando algumas coisas que eram como antes. E encontro algumas outras que não tinha. Gostei de tudo. Esperando pelo próximo capítulo. :)
    Beijos.x

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