quinta-feira, 6 de março de 2014

Prologo

 Irlanda, 1818

A chuva desabava pelos campos da fazenda O Cantar de Rigel. Já fazia mais de uma semana que o tempo ficava nublado e não parava de chover. Apesar dele já estar acostumado com o clima da Irlanda, Helena dizia que era um mau presságio.
Não havia problema nenhum com o tempo chuvoso, e ambos sabiam disso. O problema era a onda de poder que o vento trazia como se confirmasse que aquela união seria perigosa.
O vento batia nas janelas de vidro de toda a casa, como se quisesse entrar, chacoalhando as copas das árvores e fazendo com que os galhos secos arranhassem as janelas. Helena olhava para as folhas secas caindo das árvores em movimentos circulares, com os olhos arregalados – de modo que ele podia admirar mais ainda aqueles olhos verdes que, agora, pareciam duas esmeraldas. Seus lábios tremiam levemente.
— Você está com frio? – Ele perguntou, esfregando as mãos em seus braços, tentando aquecê-la, enquanto admirava, mais uma vez, o contraste entre suas peles. A dele, queimada pelo sol misturava-se com a dela, quase pálida.
Sua pele clara, e seu cabelo loiro, levemente avermelhado, presos para trás, caindo em ondas bem formadas pela cintura, e com algumas mexas encaracoladas soltas cobrindo o rosto, a deixavam com um ar de pureza. Tudo nela representava doçura e ressaltavam sua delicadeza. Ela parecia um anjo, uma pessoa quase impossível. E ele sorriu ao pensar nisso e na sorte de poder estar ali com ela, em seus braços.
— Não, não estou com frio. – Seus lábios tremeram um pouco mais ao falar. – Já disse que não devíamos estar aqui. Não hoje.
— Do que você tem medo, Helena? – Ele disse puxando-a para si. – Você sabe que aquela discussão mais cedo foi por ciúme. Theodoro terá que aceitar isso um dia. – Ele franziu o cenho, lembrando-se do irmão. – Você é minha noiva agora, e ninguém poderá mudar isso.
— Você não se importa com as minhas condições? – Agora ele podia sentir o corpo dela tremer, e ela não parava de olhar para a janela.
— Sobre o “segredo da família”? – Seus lábios se encurvaram levemente para cima ao descobrir o que realmente a preocupava. Com tantos motivos, aquilo parecia pequeno demais para ele. – Não, eu não me importo.
— Porque você não acredita. – Ela desviou o rosto da janela e passou a encará-lo. Aqueles olhos de esmeralda ainda estavam arregalados, e ele não resistiu a aproximá-la mais para ele. – Não sente medo. – Ela disse quase num sussurro.
— Você não me faria mal. – Ele riu maldosamente.
— Mas a sociedade faria se descobrisse.
— Eu não me importo. Se a denunciarem, nós fugiremos. Se fizerem algum mal a você, mando meus homens darem cem chibatadas em todos que a tocarem. Não haverá nada que possa me impedir disso, já fizemos nossa escolha. E, não tenho dúvidas de que você seja uma bruxa. – Ele sorriu e encostou seu rosto próximo do dela. – Você já me enfeitiçou. Não tem mais volta.
Ela sorriu e ele se sentiu feliz em poder afastá-la um pouco do medo.
— Se realmente acredita em mim, deveria saber que você já foi avisado.
— Sobre amá-la?
— Não. Sobre estar aqui hoje.
— O que realmente pode acontecer Helena? Do que você tem medo?
— Eu não sei. – Ela disse abaixando os olhos e o tom de voz. – Não é algo claro em minha mente. Apenas sinto. Sinto que esse mau tempo não é coincidência, quase posso ouvir vozes quando o vento sopra. E é um aviso. Posso sentir que o mal se aproxima.
Sua fala foi cortada pelos latidos de Hans, o velho cão de caça e que protegia a fazenda. Helena se virou mais uma vez para a janela, ao mesmo tempo em que apertava os braços daquele que a segurava. O vento soprou mais forte, fazendo os galhos baterem com mais força na janela. Em seguida, os latidos de Hans se silenciaram.
— Você não deveria ter vindo aqui hoje. – A voz de Helena mudou. Ao perceber isso, ele olhou para ela e viu que ela assumia uma forma diferente. Seu corpo estava amolecido em seus braços, e seu olhar estava distante. Sua voz estava grossa, como se ela fosse outra pessoa. Ele a sacudiu enquanto chamava por seu nome.
Quando ela voltou a si, não teve tempo de perguntar o que havia acontecido. Ela lançou seus braços em torno de seu pescoço e o abraçou com força, enquanto seu corpo pequeno e delicado tremia ainda mais.
Ele sabia que esse ato não era apropriado para eles, e que haviam passado dos limites hoje. Mas ela era sua noiva e, em breve, as formalidades não seriam mais tão importantes, e esses deslizes também não fariam diferença.
Ah, Thomas... – Ela disse seu nome em um sussurro. E só então ele pareceu ficar preocupado. Hans era seu companheiro mais antigo, e ele o deixava preso nos fundos da casa, devido o tempo chuvoso. Não entendia como os latidos podiam ter vindo de fora, do terreno. O medo percorria o seu corpo quando ele tentava encontrar o motivo para os latidos serem silenciados.
Helena tentou soltar-se de seus braços enquanto ele estava fragilizado, mas ele a deteve a tempo. Seu corpo ainda tremia, mas seus olhos não estavam mais arregalados. E pelo tempo que ele a conhecia, ele teve certeza de que ela tinha algo em mente.
— Deixe-me ir, por favor. – Ela disse com a voz trêmula. – Só estou querendo ajudar.
— Ir para onde?
— Para frente da casa. – Ela disse pausadamente. Ela sabia que se Thomas soubesse que havia algo errado, ele jamais a exporia a algum perigo. – Vou fazer um círculo mágico. – Ela mordeu os lábios. – Eu sei que você não acredita nessas coisas, mas, por favor, eu peço que acredite em mim ao menos dessa vez. Não sou forte o suficiente, mas lembro de alguns símbolos de proteção.
— Não. – Thomas a segurou com mais força. – Não vou deixar que se arrisque dessa maneira. Se alguém descobrir, eles virão atrás de você e de sua família. E se tiver alguém lá fora, no terreno, eu mesmo cuidarei disso.
Ela balançou a cabeça negativamente e lágrimas corriam pelo seu rosto pálido, enquanto ela ainda tentava em vão se soltar dos braços de Thomas.
Ele é forte... – Ela disse outra vez com aquela voz estranha, o que fez com que ele sentisse um gosto amargo na boca. – Então, isso é a única coisa que posso fazer por você. – Ela se aproximou dele e levantou seu rosto de encontro ao dele. Seus olhos apesar de belos estavam vazios e sem brilho e, mais uma vez, ele teve a sensação de estar lidando com outra pessoa. Em seguida, ela aproximou seus lábios de seu ouvido e começou a falar em uma língua estranha, palavras que não fizeram o menor sentido para ele, mas que percorriam sua mente com muita intensidade e lançavam uma onda de poder por todo o seu corpo. E ele sentiu medo. Talvez porque jamais tivesse acreditado de verdade na sua estória ou em bruxaria e, agora, estava sentindo na própria pele algo que não conseguia explicar. – Isso fará com que você permaneça, até que alcance o posto no qual eu reservei para você. Você é especial, Thomas, devia ter nascido como nós. Você voltará a ser alto algum dia. E, com esse beijo, a morte não o tocará até sua missão ser cumprida. Essa é a única proteção que posso cumprir. – Ela disse, com a voz ainda grave e estranha. Uma voz que não era sua. E, em seguida, seus lábios frios e macios tocaram os dele.
Eles nunca haviam se beijado antes. Os costumes da época não permitiam que eles ficassem muito próximos uns dos outros, e como sua família era muito prestigiada na sociedade, eles estavam sempre vigiados. Menos agora. Agora, ele tinha certeza de que passaram dos limites e, ainda assim, isso o fez amá-la ainda mais.
Mas foram interrompidos pelo barulho da porta da frente sendo brutalmente aberta. Eles encararam o responsável por toda aquela situação e Thomas compreendeu o que Helena tentou dizer. Apesar de pouca claridade, ele conhecia muito bem aquela silhueta e o som dos passos que se seguiram até o lugar em que eles estavam. Thomas encarou o conhecido com ódio nos olhos e percebeu que havia o mesmo nos olhos do outro. E, não apenas isso, mas que havia sangue manchando sua roupa elegante, em especial perto das mãos. E ele sentiu dor em seu peito ao descobrir o que silenciara Hans. E, ao mesmo tempo, sentiu-se satisfeito de que o conhecido tivesse flagrado os dois aos beijos. Agora, tudo o que ele queria, era causar as maiores dores possíveis nele. Queria mostrar que havia vencido.
Por enquanto.
— O que veio fazer aqui? – Thomas disse colocando Helena atrás de seu corpo. – Pensei que não havia nada mais do qual tivéssemos o que falar.
— Não permitirei que continue com essa ideia absurda. Você sabe, mais do que ninguém, quais planos foram reservados para você, e que Helena não lhe pertence.
— Ela já fez a sua escolha. – Ele disse entre os dentes. – Vá embora daqui. Você sabe que nunca foi bem vindo aqui.
— Uma escolha errada. – Ele se aproximou dos dois. – Talvez ela compreenda o erro, quando você não estiver mais no caminho.
— Já falei para ir embora, ou terei que expulsá-lo a força?
Agora os dois se encaravam, por apenas dois palmos de distancia um do outro. Thomas sentia o ódio crescer dentro dele e, ao mesmo tempo, o medo por ser impotente. Se fizesse qualquer coisa contra ele, mancharia para sempre o nome de sua família e perderiam tudo. Ele estava ciente dos danos irreparáveis que estaria formando. E talvez ele também estivesse ciente, e fosse exatamente isso que quisesse.
— Por favor, vá embora. Por favor. – Helena disse entre lágrimas, olhando para o homem que os cercava, e apertou ainda mais o braço de Thomas.
Aquilo pareceu atingi-lo, pois, automaticamente, ele deu um passo para trás. Mas o efeito não saiu como desejado. Eles ouviram quando ele trincou o maxilar e sua expressão tornou-se perigosa. Ele encarou Thomas, com os olhos faiscando de tanto ódio. Em seguida, lançou seu corpo contra o de Thomas e os dois começaram a brigar – como nos velhos tempos. Helena gritou para eles pararem, e percebeu assustada que o vento e a chuva lá fora aumentavam, sufocando os seus gritos. Ela correu para onde os dois estavam e tentou separá-los. Mas Thomas sabia que ela poderia se machucar se intervisse entre os dois.
Helena agarrou o braço de Thomas, quando este se preparava para dar um soco no oponente.
— Vocês tem que parar, por favor, por favor... – Seus olhos marejados suplicavam para que ele parasse, e ele realmente queria parar. Não queria manchar o nome da família e nem ter um futuro onde as pessoas não o veriam com bons olhos. Entretanto, sabia que essa luta jamais terminaria se algum deles ainda permanecesse vivo.
Ele empurrou Helena para longe, assim que viu que o outro se preparava para golpeá-lo enquanto ela o havia distraído. Por meio dos golpes, ele viu quando Helena tropeçou na barra do vestido e bateu a cabeça com força no piso de madeira. Ele gritou seu nome, mas ela não se moveu. Ele queria protegê-la dele, mas nada saiu como ele havia imaginado.
Seu oponente acompanhou seus olhos e viu o mesmo, e a ira dentro de si pareceu aumentar. Apesar de ser tão forte quanto ele, Thomas não resistiu quando ele o golpeou e lançou seu corpo no chão, ficando por cima e batendo a cabeça dele com força no chão, como o que ele havia acontecido com Helena.
— Ela nunca foi sua – Ele disse entre os dentes. – Ela nunca poderia ter vindo de tão longe por você. Você não tem o direito de tocá-la, você deveria morrer por machucá-la. 
Thomas continuou a chamar por ela, mas de onde estava não conseguiu ver quando ela começou a se levantar com dificuldade e que fazia muita força para respirar. Ele segurou o pescoço de Thomas com as próprias mãos e, apesar de Thomas tentar se soltar e golpeá-lo, estava muito enfraquecido.
— Estou curioso para saber como a sociedade reagirá quando descobrir que o próprio pai matou seu filho. – Ele sorriu maldosamente quando viu a expressão de Thomas mudar e viu o quanto ele estava sentindo ódio.
Helena viu quando as mãos de Thomas começaram a ficar frouxas e podia ouvi-lo respirar cada vez mais com mais dificuldade. Ela tentou se levantar, mas sua cabeça doía muito. As lágrimas escorriam por sua face e ela tentou chamar por ele, cada vez mais alto, como se pudesse impedi-lo de deixá-la.
Não resistiu a gritar quando as mãos dele tombaram no piso de madeira e quando ele largou seu corpo e voltou seu olhar para ela, ainda furioso.
O que mais a atormentou, é que não podia vê-lo, mas podia senti-lo.


7 comentários:

  1. Vou ler tudo de novo. Quase não me lembro de muita coisa. Esperando você postar, muito ansiosa na verdade haha. Amo sua história e gostaria que fosse publicada.
    Daniela Oliveira x

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    1. Oi, Daniela!! Fico muito feliz em saber que você vai reler e que gosta da história!! Muito obrigada mesmo!! :D
      Eu mudei muita coisa na história (tirei alguns personagens e acrescentei outros, por exemplo). Esse prólogo, por exemplo, não tinha na versão antiga.
      Se ela fosse publicada seria um sonho! rs
      Vou começar a postar logo! Nos vemos em breve :)
      Beeijos, e muito obrigada pelo carinho!

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  2. Parabéns pelos texto!
    Obrigada pela visita!
    Beijoss
    Lily’s Nail

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  3. estou amando, parabéns, vou continuar seguindo com ansiedade, beijos e boa continuação

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    1. Muito obrigada, Anabela!! Eu fico muito feliz por você ter gostado e em saber que vai continuar!! :)
      Vou começar a postar amanhã!!

      Beijinhos!

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    2. Oh! Fernanda eu é que agradeço
      beijinhos
      e a espera de mais

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